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Aracaju, Quarta-feira, 16 de setembro de 2026
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Meio Ambiente

Em 1952, Guimarães Rosa alertou para a devastação do Cerrado

Pesquisadora afirma que as anotações de Guimarães Rosa, feitas em 1952, denunciam riscos ao Cerrado e inspiraram obras que tratam o bioma como personagem.

11/09/2026 · 00h00 · Atualizado às 08h30
Em 1952, Guimarães Rosa alertou para a devastação do Cerrado

O escritor percorreu 240 km do Cerrado mineiro e anotou sinais de devastação causados por eucalipto e siderúrgicas. As cadernetas inspiraram clássicos e reforçam a urgência de proteger o bioma.

João Guimarães Rosa já era um escritor consagrado em 1952 quando integrou uma comitiva de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros pelo Cerrado mineiro entre Três Marias e Araçaí. As anotações feitas nas cadernetas durante essa viagem registraram paisagens, espécies e também sinais de devastação provocados por eucalipto e pelas siderúrgicas, apontamentos que inspiraram obras como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, publicadas em 1956, que completam 70 anos este ano.

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Neste Dia Nacional do Cerrado, a importância do bioma aparece evidenciada tanto nas descrições literárias quanto nas análises atuais sobre ocupação e uso do território. A professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisa a presença ecológica na obra de Guimarães Rosa e lançou no mês passado a segunda edição do livro “Ser-tão natureza”.

“Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio”

Explica Mônica Meyer que as anotações de 1952 funcionam como um inventário do bioma na década de 1950 e revelam uma interseção entre natureza e cultura presente nos contos e romances do autor.

“Essa viagem [da boiada] é um verdadeiro inventário do Cerrado na década de 1950. Um material de extrema riqueza que faz essa intersecção da natureza com a cultura”

Para a pesquisadora, Guimarães Rosa não coloca o Cerrado apenas como cenário: o bioma atua como personagem das narrativas, integrando-se aos demais elementos humanos e não humanos.

“Isso é muito importante e é um dos recados que o Guimarães Rosa passa para a gente. O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo.”

Mônica Meyer identifica nas obras referências precisas à geografia e à biologia locais, como o rio de Janeiro — afluente do Rio São Francisco em Três Marias —, descrições da fauna, das plantas e da movimentação social ligada ao uso da paisagem.

“O Grande Sertão: Veredas é um romance aquático”

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A pesquisadora ressalta que o romance mapeia as estações do Cerrado, contrapondo o período de chuvas, favorável à vida, ao período de seca, que impõe desafios à sobrevivência. A natureza, nessa leitura, mantém uma relação de sinergia com personagens como Riobaldo e Diadorim.

“A natureza é um personagem relevante demais e que tem uma sinergia com os demais personagens.”

Mônica Meyer sublinha também o papel educacional da obra: embora não seja um manifesto explícito, a literatura de Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar para o bioma com atenção estética e ética, valorizando fauna, flora e águas em vez de tratá-los apenas como recursos.

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“Ele não faz nenhum discurso [explícito] de ‘vamos defender a natureza’. Mas, por exemplo, a personagem de Diadorim estimula Riobaldo a ver o bioma de forma diferente.”

“Ele nunca tinha olhado para o passarinho com prazer e para a beleza daquele espaço. Todo o romance está pontuado de registros da fauna e da flora e das águas.”

“Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar para a natureza com outros olhos, não como recurso natural ou como mercadoria, mas como um espaço vivo.”

“É um material riquíssimo para trabalhar aspectos da educação ambiental. É, sem sombra de dúvida, uma grande enciclopédia do Cerrado.”

As observações do autor e as análises da pesquisadora apontam o valor histórico e pedagógico das obras para compreender mudanças no Cerrado e para alimentar reflexões sobre conservação, uso do solo e educação ambiental.

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O escritor percorreu 240 km do Cerrado mineiro e anotou sinais de devastação causados por eucalipto e siderúrgicas. As cadernetas inspiraram clássicos e reforçam a urgência de proteger o bioma.

João Guimarães Rosa já era um escritor consagrado em 1952 quando integrou uma comitiva de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros pelo Cerrado mineiro entre Três Marias e Araçaí. As anotações feitas nas cadernetas durante essa viagem registraram paisagens, espécies e também sinais de devastação provocados por eucalipto e pelas siderúrgicas, apontamentos que inspiraram obras como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, publicadas em 1956, que completam 70 anos este ano.

Neste Dia Nacional do Cerrado, a importância do bioma aparece evidenciada tanto nas descrições literárias quanto nas análises atuais sobre ocupação e uso do território. A professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisa a presença ecológica na obra de Guimarães Rosa e lançou no mês passado a segunda edição do livro “Ser-tão natureza”.

“Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio”

Explica Mônica Meyer que as anotações de 1952 funcionam como um inventário do bioma na década de 1950 e revelam uma interseção entre natureza e cultura presente nos contos e romances do autor.

“Essa viagem [da boiada] é um verdadeiro inventário do Cerrado na década de 1950. Um material de extrema riqueza que faz essa intersecção da natureza com a cultura”

Para a pesquisadora, Guimarães Rosa não coloca o Cerrado apenas como cenário: o bioma atua como personagem das narrativas, integrando-se aos demais elementos humanos e não humanos.

“Isso é muito importante e é um dos recados que o Guimarães Rosa passa para a gente. O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo.”

Mônica Meyer identifica nas obras referências precisas à geografia e à biologia locais, como o rio de Janeiro — afluente do Rio São Francisco em Três Marias —, descrições da fauna, das plantas e da movimentação social ligada ao uso da paisagem.

“O Grande Sertão: Veredas é um romance aquático”

A pesquisadora ressalta que o romance mapeia as estações do Cerrado, contrapondo o período de chuvas, favorável à vida, ao período de seca, que impõe desafios à sobrevivência. A natureza, nessa leitura, mantém uma relação de sinergia com personagens como Riobaldo e Diadorim.

“A natureza é um personagem relevante demais e que tem uma sinergia com os demais personagens.”

Mônica Meyer sublinha também o papel educacional da obra: embora não seja um manifesto explícito, a literatura de Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar para o bioma com atenção estética e ética, valorizando fauna, flora e águas em vez de tratá-los apenas como recursos.

“Ele não faz nenhum discurso [explícito] de ‘vamos defender a natureza’. Mas, por exemplo, a personagem de Diadorim estimula Riobaldo a ver o bioma de forma diferente.”

“Ele nunca tinha olhado para o passarinho com prazer e para a beleza daquele espaço. Todo o romance está pontuado de registros da fauna e da flora e das águas.”

“Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar para a natureza com outros olhos, não como recurso natural ou como mercadoria, mas como um espaço vivo.”

“É um material riquíssimo para trabalhar aspectos da educação ambiental. É, sem sombra de dúvida, uma grande enciclopédia do Cerrado.”

As observações do autor e as análises da pesquisadora apontam o valor histórico e pedagógico das obras para compreender mudanças no Cerrado e para alimentar reflexões sobre conservação, uso do solo e educação ambiental.

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