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Policial

Especialistas propõem medidas para romper ciclo da violência doméstica

Especialistas discutem desafios e soluções para combater a violência de gênero no Brasil.

07/08/2026 · 00h00 · Atualizado às 12h42
Especialistas propõem medidas para romper ciclo da violência doméstica

Duas décadas após a Lei Maria da Penha, violência de gênero e feminicídio seguem altos no Brasil. Especialistas dizem que punir é necessário, mas é preciso apoio estrutural para que vítimas não retornem ao agressor.

Duas décadas após a sanção da Lei Maria da Penha, o Brasil ainda enfrenta o desafio de conter a violência de gênero e os altos índices de feminicídio. Para especialistas e operadores do Direito, a repressão e a punição criminal do agressor são fundamentais, mas insuficientes de forma isolada.

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O fim do ciclo de violência exige a construção de caminhos estruturais para que a vítima consiga, de fato, se reerguer e não retorne ao ambiente abusivo. Em entrevista, a promotora de Justiça Juliana Gentil Tocunduva, do Ministério Público de São Paulo, alerta que a violência doméstica raramente começa com uma agressão física grave. Para ela, o feminicídio costuma ser o capítulo final de um processo de controle e isolamento que vai escalonando ao longo do tempo.

“As relações abusivas começam de uma maneira muito sutil. Muitas vezes essa violência é confundida com benquerer, com ciúme, com amor.”

A promotora pontua que proibições disfarçadas e o monitoramento excessivo já são violações sérias, e resume o limite de uma relação saudável: “Tudo aquilo que não te traz conforto é violento”. Essa escalada invisível fez parte da rotina da delegada Amanda Souza, sobrevivente de violência vicária — quando o agressor atinge os filhos para causar sofrimento extremo à mulher.

A delegada dividiu a vida com o marido por 20 anos sob constante violência psicológica, sem nunca ter sofrido agressão física. Quando Amanda conquistou independência e pôs fim ao casamento, o ex-marido assassinou os dois filhos do casal, de 9 e 12 anos, para puni-la.

“Muitas vezes, basta um único episódio. Eu vivi, por 20 anos, uma relação em que nunca sofri violência física… E bastou um único dia de violência para que hoje meus filhos não estivessem mais aqui.”

A advogada Gabriela Manssur, presidente do Instituto Justiça de Saia e ex-promotora de Justiça, afirma que o endurecimento penal, sozinho, não salva a vítima. Para conseguir sair do ciclo, Manssur aponta que a mulher precisa de três fatores essenciais: dinheiro, apoio psicológico e uma rede de apoio familiar e social.

“Sem independência financeira ou saúde mental estruturada, a vulnerabilidade atrai a mulher de volta ao abusador.”

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Durante a pandemia, Manssur idealizou o projeto Justiceiras, que fornece apoio jurídico, psicológico, socioassistencial e encaminhamento para o mercado de trabalho, atendendo mais de 23 mil vítimas. Segundo a ex-promotora, nenhuma das mulheres assistidas pela rede sofreu feminicídio.

A proteção das vítimas é um aspecto crucial para a reconstrução de vida, que precisa de segurança imediata. É aí que atuam as Medidas Protetivas de Urgência (MPU). A procuradora de Justiça Criminal do MPSP, Nathalie Malveiro, utiliza uma analogia para ilustrar a importância da ordem de afastamento: “A medida protetiva funciona como um copo de água fria numa panela de água fervendo”.

Malveiro rebate o descrédito jogado sobre a lei quando casos de descumprimento ganham destaque na mídia. Ela destaca que a maioria dos casos de feminicídio em São Paulo ocorreu com mulheres que não tinham nenhuma medida protetiva ativa.

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Para a procuradora, uma ordem judicial impõe um freio institucional na grande maioria dos homens. A eficácia dessa medida é garantida por meio da fiscalização ativa, a exemplo do Programa Guardiã Maria da Penha, executado pela Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A comandante Mary Roseane de Souza explica que o programa realiza visitas domiciliares e disponibiliza um aplicativo de emergência no celular da vítima.

“Nosso trabalho é fazer um acolhimento humanizado para que ela não tenha mais vontade de voltar para o agressor. Nenhuma mulher vai estar sozinha com a gente.”

Uma sobrevivente atendida pela patrulha descreve o alívio que sentiu ao receber suporte legal e escolta. “Eu não tinha ideia do quanto a medida protetiva poderia me ajudar”, afirma. Ela relata que seu agressor ficou com medo e não se aproximou mais, reforçando que as mulheres não estão sozinhas, mas que têm uma rede de apoio disponível.

“Não basta a reprovação criminal. Muitas vezes essa mulher viveu anos de violência.”

Juliana Tocunduva reforça que é a integração entre Justiça, proteção policial, psicoterapia e geração de renda que, de fato, liberta a mulher de seu agressor.

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Duas décadas após a Lei Maria da Penha, violência de gênero e feminicídio seguem altos no Brasil. Especialistas dizem que punir é necessário, mas é preciso apoio estrutural para que vítimas não retornem ao agressor.

Duas décadas após a sanção da Lei Maria da Penha, o Brasil ainda enfrenta o desafio de conter a violência de gênero e os altos índices de feminicídio. Para especialistas e operadores do Direito, a repressão e a punição criminal do agressor são fundamentais, mas insuficientes de forma isolada.

O fim do ciclo de violência exige a construção de caminhos estruturais para que a vítima consiga, de fato, se reerguer e não retorne ao ambiente abusivo. Em entrevista, a promotora de Justiça Juliana Gentil Tocunduva, do Ministério Público de São Paulo, alerta que a violência doméstica raramente começa com uma agressão física grave. Para ela, o feminicídio costuma ser o capítulo final de um processo de controle e isolamento que vai escalonando ao longo do tempo.

“As relações abusivas começam de uma maneira muito sutil. Muitas vezes essa violência é confundida com benquerer, com ciúme, com amor.”

A promotora pontua que proibições disfarçadas e o monitoramento excessivo já são violações sérias, e resume o limite de uma relação saudável: “Tudo aquilo que não te traz conforto é violento”. Essa escalada invisível fez parte da rotina da delegada Amanda Souza, sobrevivente de violência vicária — quando o agressor atinge os filhos para causar sofrimento extremo à mulher.

A delegada dividiu a vida com o marido por 20 anos sob constante violência psicológica, sem nunca ter sofrido agressão física. Quando Amanda conquistou independência e pôs fim ao casamento, o ex-marido assassinou os dois filhos do casal, de 9 e 12 anos, para puni-la.

“Muitas vezes, basta um único episódio. Eu vivi, por 20 anos, uma relação em que nunca sofri violência física… E bastou um único dia de violência para que hoje meus filhos não estivessem mais aqui.”

A advogada Gabriela Manssur, presidente do Instituto Justiça de Saia e ex-promotora de Justiça, afirma que o endurecimento penal, sozinho, não salva a vítima. Para conseguir sair do ciclo, Manssur aponta que a mulher precisa de três fatores essenciais: dinheiro, apoio psicológico e uma rede de apoio familiar e social.

“Sem independência financeira ou saúde mental estruturada, a vulnerabilidade atrai a mulher de volta ao abusador.”

Durante a pandemia, Manssur idealizou o projeto Justiceiras, que fornece apoio jurídico, psicológico, socioassistencial e encaminhamento para o mercado de trabalho, atendendo mais de 23 mil vítimas. Segundo a ex-promotora, nenhuma das mulheres assistidas pela rede sofreu feminicídio.

A proteção das vítimas é um aspecto crucial para a reconstrução de vida, que precisa de segurança imediata. É aí que atuam as Medidas Protetivas de Urgência (MPU). A procuradora de Justiça Criminal do MPSP, Nathalie Malveiro, utiliza uma analogia para ilustrar a importância da ordem de afastamento: “A medida protetiva funciona como um copo de água fria numa panela de água fervendo”.

Malveiro rebate o descrédito jogado sobre a lei quando casos de descumprimento ganham destaque na mídia. Ela destaca que a maioria dos casos de feminicídio em São Paulo ocorreu com mulheres que não tinham nenhuma medida protetiva ativa.

Para a procuradora, uma ordem judicial impõe um freio institucional na grande maioria dos homens. A eficácia dessa medida é garantida por meio da fiscalização ativa, a exemplo do Programa Guardiã Maria da Penha, executado pela Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A comandante Mary Roseane de Souza explica que o programa realiza visitas domiciliares e disponibiliza um aplicativo de emergência no celular da vítima.

“Nosso trabalho é fazer um acolhimento humanizado para que ela não tenha mais vontade de voltar para o agressor. Nenhuma mulher vai estar sozinha com a gente.”

Uma sobrevivente atendida pela patrulha descreve o alívio que sentiu ao receber suporte legal e escolta. “Eu não tinha ideia do quanto a medida protetiva poderia me ajudar”, afirma. Ela relata que seu agressor ficou com medo e não se aproximou mais, reforçando que as mulheres não estão sozinhas, mas que têm uma rede de apoio disponível.

“Não basta a reprovação criminal. Muitas vezes essa mulher viveu anos de violência.”

Juliana Tocunduva reforça que é a integração entre Justiça, proteção policial, psicoterapia e geração de renda que, de fato, liberta a mulher de seu agressor.

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