O comunicado da última decisão de juros do Copom (Comitê de Política Monetária) foi recebido pelo mercado como uma surpresa negativa. O Banco Central (BC) cortou a taxa de juros em 0,25 ponto percentual, pela terceira vez, reduzindo a Selic para 14,25% ao ano. Economistas e analistas do mercado financeiro consideraram a ação confusa, criando um cenário de incerteza.
A divulgação do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta terça-feira (30) é aguardada com expectativa. O comportamento do mercado de trabalho tem relação direta com a trajetória dos juros, e o Caged pode influenciar os preços no mercado, especialmente na curva de juros, se os dados divergem do consenso.
“Para mudar de verdade a trajetória da política monetária, seria preciso uma sequência de dados mostrando uma desaceleração mais clara do mercado de trabalho e da inflação”, explica Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital.
O mercado de trabalho continua aquecido, com a mediana das expectativas apontando para a criação de 130 mil novas vagas formais, conforme demonstrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. A taxa de desemprego, apurada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi de 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor resultado para o mês desde o início da série histórica da Pnad Contínua.
No entanto, há expectativas de que o mercado de trabalho comece a mostrar sinais de arrefecimento. André Valério, economista sênior do Inter, afirma: “Esperamos um mercado de trabalho com menor dinamismo na margem. Nossa projeção é de taxa de desocupação a 5,7% ao fim do ano, 0,1 ponto percentual acima da última leitura da PNAD. Portanto, esperamos um mercado de trabalho essencialmente de lado até o fim do ano.”
“Não antecipamos um cenário de desaceleração abrupta da atividade e do mercado de trabalho, mas vemos sinais nas leituras dos últimos meses de que o pico do mercado de trabalho já foi alcançado”, complementa Valério.
Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, acredita que a resiliência do mercado de trabalho já está precificada pelo mercado. “Dito isso, salvo um resultado muito acima do esperado, com aceleração dos salários e crescimento das demissões por solicitação do trabalhador em busca de novos recordes históricos, não esperamos mudanças nas expectativas sobre a evolução da taxa de juros em decorrência do Caged”, conclui.
O alerta permanece em relação ao cenário inflacionário e, consequentemente, à incerteza sobre os juros. Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro e head de macroeconomia do ASA, acredita que o BC deve interromper o ciclo de afrouxamento na próxima reunião, embora o risco de novos cortes ainda esteja presente. “Entendemos que, sem a contribuição da política fiscal, o BC não teria outra alternativa senão sinalizar a perspectiva de aumentar o aperto monetário”, ressalta.
A expectativa por uma pausa na política monetária também é compartilhada por Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, que observa que a combinação de um cenário interno desafiador e expectativas desancoradas tende a levar a essa pausa. De acordo com o boletim Focus do dia 22 de junho, o mercado financeiro revisou para cima a previsão para os juros, agora estimando a Selic em 14% ao final de 2026.
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