Condições naturais e investimentos impulsionam a geração solar, movimentam a economia e ampliam a demanda por profissionais especializados na região
Transformar a radiação do sol, uma fonte abundante no território brasileiro, em eletricidade para abastecer casas, empresas e indústrias já faz parte da realidade energética do país. Na geração solar fotovoltaica, essa conversão ocorre por meio de painéis formados por células de silício, que captam a luz solar e a transformam em corrente elétrica. A tecnologia avançou ao combinar duas características que ganharam importância no setor: a geração a partir de uma fonte renovável e a queda dos custos envolvidos na implantação dos sistemas.
A energia solar ocupa atualmente uma posição relevante na matriz elétrica brasileira. Conforme explica Silvio Leonardo Valença, doutor e professor dos cursos de Engenharia da Universidade Tiradentes (Unit), o crescimento da fonte fez com que ela passasse a representar a segunda maior participação na geração de eletricidade do país.
“Em apenas um ano, a participação da energia solar na produção de eletricidade do país passou de 20,9% para 24,5%, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Com isso, a fonte se tornou a segunda maior do Brasil, atrás apenas da hidrelétrica. Segundo a Absolar, o país já ultrapassa 63 GW de potência solar instalada, considerando tanto as grandes usinas quanto os sistemas instalados em telhados de casas, empresas e indústrias”, explica.
No Nordeste, esse movimento é ainda mais expressivo, favorecido pelas características naturais da região e pela chegada de novos investimentos. “No recorte regional, o Nordeste é o grande protagonista: concentra mais de 50% de toda a geração solar nacional, com cerca de 20,2 GW de capacidade instalada e investimentos que já superam R$ 89 bilhões”, destaca Valença.
Vantagens naturais
Entre os fatores que explicam esse desempenho estão as condições geográficas e climáticas do Nordeste, somadas a elementos que contribuíram para a instalação dos empreendimentos. “Primeiro, a irradiação solar: é a região com os maiores índices de radiação do país, com céu predominantemente limpo e baixa nebulosidade ao longo do ano, especialmente no semiárido. Segundo a disponibilidade de terras planas e de baixo custo, favoráveis à instalação de grandes usinas centralizadas. Terceiro, a complementaridade com a energia eólica: os ventos costumam ser mais intensos à noite e no período seco, exatamente quando a radiação solar é menor, o que permite operar as duas fontes de forma complementar ao longo do dia e do ano”, enumera o professor.
A essas características se somaram iniciativas que contribuíram para tornar o ambiente regional mais atrativo aos investidores. “Some-se a isso políticas estaduais de incentivo fiscal, simplificação de licenciamento e um ambiente regulatório federal favorável desde a última década, que juntos transformaram a região no principal polo solar do Brasil”, completa o docente da Unit.
Destaque de Sergipe
Sergipe também acompanha a expansão da geração fotovoltaica observada no Nordeste. Dados recentes da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) registram um aumento de 13,2% na quantidade de sistemas de energia solar entre janeiro e novembro de 2025, segundo maior crescimento percentual do país.
“Segundo dados recentes da ANEEL, Sergipe teve um crescimento de 13,2% no número de sistemas de energia solar entre janeiro e novembro de 2025, o segundo maior aumento do país. Atualmente, o estado já tem mais de 21 mil sistemas instalados em casas e empresas, que juntos ultrapassam 253 MW de potência. A energia solar já está presente nos 75 municípios sergipanos”, ressalta Valença.
A ampliação da fonte ocorre em um estado cuja produção energética já reúne diferentes matrizes. “Isso é particularmente significativo porque Sergipe já possui uma matriz diversificada, historicamente apoiada em petróleo, gás natural e termelétricas: a energia solar se soma a essa base, ampliando a segurança energética do estado e criando um portfólio mais resiliente e sustentável”, pontua o professor.
A expansão da geração fotovoltaica também alterou a participação das fontes renováveis na matriz elétrica nacional. “A energia solar já a ultrapassou em participação nacional há alguns anos e hoje é a segunda maior fonte do país, atrás apenas da geração hídrica. O crescimento acelerado da geração distribuída, muito mais ágil de instalar do que grandes parques eólicos, foi o principal responsável por essa inversão”, esclarece Valença.
Redução de custos
O crescimento do número de painéis solares instalados em residências, estabelecimentos comerciais e empresas está relacionado a transformações econômicas e regulatórias ocorridas nos últimos anos. “Do lado econômico, o custo dos módulos fotovoltaicos e inversores caiu de forma acentuada na última década, ao mesmo tempo em que as tarifas de energia elétrica convencional seguiram em alta, tornando o retorno do investimento mais atrativo. Do lado regulatório, a Lei nº 14.300/2022 (marco legal da geração distribuída) e a Resolução Normativa nº 1.000/2021 da ANEEL deram segurança jurídica ao setor, enquanto políticas estaduais em Sergipe, a Lei nº 8.467/2018, criaram incentivos fiscais específicos”, pontua o especialista.
A ampliação das alternativas de crédito também ajudou a tornar a tecnologia mais acessível a consumidores interessados em instalar os sistemas. “Também pesa a maior disponibilidade de linhas de financiamento voltadas à energia solar, tanto para pessoa física quanto para empresas, além de uma crescente consciência ambiental e da busca de empresas por metas ESG e redução de custos operacionais”, complementa.
Exigências de projeto
A possibilidade de diminuir os gastos com eletricidade, porém, não garante que todos os sistemas terão o mesmo desempenho. Os resultados dependem das condições de cada imóvel e das escolhas feitas no dimensionamento do projeto. “A economia efetiva depende de um dimensionamento correto do sistema em relação ao perfil de consumo do imóvel, de orientação e inclinação adequadas dos módulos, da ausência de sombreamento, da qualidade dos equipamentos (painéis e inversores) e de manutenção periódica”, alerta o professor.
As próprias regras que disciplinam a geração distribuída sofreram alterações que precisam ser consideradas na avaliação do retorno financeiro. “Além disso, desde a nova legislação do setor, os sistemas de geração distribuída passaram a pagar, de forma escalonada até 2029, uma parcela cada vez maior da chamada Tarifa Fio B, o custo de uso da rede de distribuição, o que reduz gradualmente a economia proporcionada pelo excedente injetado na rede. Portanto, sim, é tecnicamente possível obter economia real e significativa, mas isso exige um projeto bem elaborado e não apenas a compra e instalação dos equipamentos”, explica.
Desafio do curtailment
O avanço simultâneo das gerações solar e eólica também criou um desafio para o sistema elétrico: dar destino a toda a energia disponível. Em determinados períodos, a produção supera a demanda ou encontra limitações na capacidade de transmissão. “Essa é hoje uma das maiores discussões técnicas do setor elétrico brasileiro: o chamado curtailment, ou corte forçado de geração. Ocorre quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina que usinas solares e eólicas reduzam ou interrompam sua produção porque a rede de transmissão não tem capacidade de escoar toda a energia gerada, ou porque a oferta supera a demanda momentânea”, detalha Valença.
O impacto é particularmente significativo no Nordeste, responsável por uma parcela expressiva da geração renovável brasileira. “O Nordeste é a região mais afetada, por concentrar a maior parte dos parques solares e eólicos do país e ficar distante dos grandes centros consumidores do Sudeste. Em 2026, já foram registrados episódios de corte que ultrapassaram 6 mil MW por mais de 21 horas seguidas, e um recorde de 14.278 MW cortados em um único dia, volume equivalente à potência instalada da usina de Itaipu. Ao longo de 2025, o país deixou de aproveitar 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível, uma perda estimada em cerca de R$ 6 bilhões”, afirma o professor.
De acordo com Valença, a ANEEL já avalia alternativas para enfrentar esse cenário, entre elas as medidas discutidas na Consulta Pública nº 009/2026.
Eletromobilidade e armazenamento
Uma das alternativas para utilizar melhor a eletricidade gerada é recorrer a tecnologias de armazenamento. Nesse contexto, veículos elétricos podem, no futuro, atuar também como unidades de armazenamento, acumulando parte da energia produzida durante o dia para disponibilizá-la em outro momento.
“A tecnologia permite que a bateria dos veículos elétricos armazene o excedente de energia solar produzido durante o dia e devolva essa energia para a residência ou para a rede à noite, quando o consumo aumenta. Dessa forma, é possível aproveitar melhor uma energia que muitas vezes seria desperdiçada”, explica o professor.
No Brasil, entretanto, essa possibilidade ainda está em estágio inicial. “Alguns veículos elétricos já podem fornecer energia para outros equipamentos, mas o uso das baterias dos carros para armazenar energia e depois devolvê-la à casa ou à rede ainda depende de equipamentos específicos e de novas regras para funcionar”, observa.
Soluções de infraestrutura
O uso das baterias de veículos é uma das alternativas disponíveis, mas a expansão do sistema também depende de investimentos em linhas de transmissão e em estruturas de armazenamento de maior porte. “A mais estrutural é a expansão da infraestrutura de transmissão, ligando o Nordeste, excedentário em energia limpa, aos grandes centros de consumo do Sudeste, incluindo novas linhas de corrente contínua de 800 kV, com leilões que já preveem cerca de R$ 22 bilhões em investimentos. Também é essencial o desenvolvimento de sistemas de armazenamento em baterias (BESS) em escala de rede, capazes de reter o excedente diurno para uso posterior”, afirma Valença.
Outra possibilidade está na adequação do consumo aos períodos em que a produção é maior. “Do ponto de vista regulatório, o setor precisa de sinais de preço mais dinâmicos, tarifas horárias que estimulem o consumo justamente nos períodos de maior geração solar. Some-se a isso a modernização das redes com tecnologias de gestão inteligente (smart grids), programas de resposta da demanda, e a atração de grandes consumidores industriais, como data centers e projetos de hidrogênio verde, para o próprio Nordeste, reduzindo a necessidade de transportar toda a energia para outras regiões”, completa.
Fronteira profissional
As transformações provocadas pela expansão das fontes renováveis também ampliam a procura por profissionais capazes de atuar em diferentes segmentos do setor elétrico. “Há demanda crescente por engenheiros eletricistas e mecânicos capacitados em projeto e dimensionamento de sistemas fotovoltaicos, por técnicos de instalação, operação e manutenção (O&M), por especialistas em armazenamento de energia e sistemas híbridos, por profissionais de infraestrutura de recarga e eletromobilidade, e por engenheiros de transmissão e planejamento energético, área especialmente aquecida diante da necessidade urgente de novas linhas”, detalha o professor.
Essa demanda envolve tanto profissionais com formação superior quanto trabalhadores especializados em cursos técnicos. “Também cresce a procura por auditores e projetistas de eficiência energética, e por técnicos formados em cursos de qualificação profissional (FIC) e técnicos de nível médio, exatamente o tipo de formação que instituições como a UNIT/CFP vêm estruturando. É um mercado que combina engenharia, tecnologia da informação (para gestão inteligente de redes) e regulação, abrindo espaço tanto para profissionais recém-formados quanto para especializações e requalificações”, pontua.
Desenvolvimento sustentável
A expansão da geração solar modifica não apenas a produção de eletricidade, mas também movimenta investimentos, aumenta a necessidade de mão de obra especializada e cria condições para a chegada de novos negócios à região. “A energia solar tem um papel estratégico duplo. Do ponto de vista econômico, diversifica a matriz elétrica e reduz a dependência de um único tipo de fonte, o que é especialmente relevante num país historicamente apoiado na geração hidráulica e, portanto, vulnerável a períodos de estiagem. Ela também atrai investimentos robustos, gera empregos qualificados ao longo de toda a cadeia produtiva e fortalece a atratividade de estados como Sergipe e a região Nordeste para novos negócios e indústrias”, afirma Silvio Leonardo Valença.
Em Sergipe, essa expansão acrescenta uma nova possibilidade a uma economia que já possui histórico ligado à exploração de petróleo e gás natural. “Do ponto de vista da sustentabilidade, é uma fonte limpa, renovável e alinhada às metas nacionais e globais de descarbonização, contribuindo diretamente para a redução de emissões de gases de efeito estufa. Para Sergipe, que construiu parte de sua história econômica em torno do petróleo e do gás natural, a energia solar representa a oportunidade de somar uma nova página a essa trajetória: a de se tornar também protagonista da transição energética, unindo tradição industrial e inovação em energias renováveis”, conclui.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
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