BIVAL E AS BANANEIRAS por Domingo Haroldo R. C. Reinhardt e Manoel Moacir Costa Macêdo

Redação, 19 de Fevereiro , 2021

A vida universitária no campus da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - UFBA em Cruz das Almas, na década de setenta, foi uma robusta experiência de vida. Possivelmente, não ultrapassavam mil pessoas, incluindo estudantes, funcionários e familiares que viviam nos alojamentos de estudantes, e bairros dos professores e funcionários. Além da vida no interior, o ambiente era rural. Exceto a casa do professor José da Conceição, onde morava o colega Milton José, nunca visitamos outras residências dos professores.

Os estudantes, eram selecionados para os alojamentos e para o restaurante universitário, o nosso RU. Alguns tinham todos benefícios, outros parciais e outros nenhum deles. Esses últimos residiam nas “repúblicas de estudantes” na cidade, algumas famosas e fizeram história. As seleções dependiam da Secretária da Escola de Agronomia, Dona Angelina, afeiçoada, poderosa, temida e agia ao seu modo. Quiçá, acolhia os “jeitinhos” da cultura pátria. Por iniciativa de Bival da Conceição, estudante veterano e sergipano de Japaratuba, alugamos um quarto na residência de uma modesta funcionária no bairro dos funcionários. Manoel e Bival atendiam o almoço e o jantar no RU e Haroldo não gozava de nenhum benefício.

A vida no campus, sem a convivência nos alojamentos, não representava o genuíno ambiente estudantil, mas estávamos próximos dele. Existiam diferentes grupos com os seus modos de viver. No nosso caso, foi uma agradável experiência. Vivíamos parcialmente no campus. Destacamos algumas lembranças dessa morada naquele simples e pequeno cômodo. Nos semestres que tínhamos disciplinas comuns, experimentamos um método de estudo a três. Cada um estudava os conteúdos e ao final, uma discursão conjunta sobre as dúvidas e simulações das questões de provas.  

Chamava a atenção, os métodos individuais de lidar com as tarefas estudantis. Manoel e Haroldo, sentavam ao redor da pequena mesa, em silêncio, concentrados, estudavam e anotavam as dúvidas para a discussão conclusiva. Normalmente, Haroldo ao invés de dúvidas, tinha as soluções. Bival -, estudava deitado na cama, de cabeça para baixo, dirigida ao livro ou apostila postas no chão. Esforço físico e afronta à lei da gravidade. Cada um exercia a metodologia mais conveniente. As dúvidas mais constantes, partiam de Manoel e Bival. Haroldo além da competência, possuía a disciplina germânica. Apesar de parceiros, a paciência com essa metodologia em pouco tempo esgotou. Decisão tomada: cada um segue o seu próprio e individual método de estudar. Respeito “as necessidades versus as possibilidades”.

Surpresas surgiram. Manoel e Haroldo continuaram estudando no quarto, na mesa e em silêncio. Cumprida as tarefas, Haroldo retornava à cama de campanha dobrável, para descansar e facilitar a circulação no pequeno aposento. Manoel, recorria às agradáveis conversas com os da casa. Bival trocou o quarto pelo quintal da casa. Estudava regularmente em companhia das bananeiras e do seu tamborete. Assim foi o nosso cotidiano no modo de estudar. Num dia ensolarado, Manoel encerrou a leitura mais cedo que Haroldo e para esfriar a “cabeça quente”, foi silenciosamente ao quintal e avistou à distância Bival. Solitário, sentado no banquinho, concentrado e arrodeado pelas bananeiras. Apostila numa mão e gestos noutra. Conversava naturalmente com as bananeiras, num diálogo dos sensíveis, generosos e sábios. Não foi perturbado e nem incomodado pelo seu jeito de estudar. Caso chegasse ao conhecimento dos demais, seria incompreendido. Pesquisas recentes mostram que as plantas reagem aos estímulos externos e se comunicam entre si por redes subterrâneas de microrrizas.

Bival, o mais velho de nós três, oriundo de uma modesta família de agricultores sergipanos, abandonou o seguro e disputado emprego na Petrobrás, para entrar na Universidade e prospectar uma nova vida, além de “peão do petróleo”. Vida modesta e simples. Merecedor dos nossos aplausos e admiração. Humanista, espiritualizado e desprovido de vaidade e extravagâncias. Quase meio século passado, Bival ensinou que a vida é um sonho, em que os verdadeiros valores são aqueles que partem conosco e não os que ficam.  

 

Domingo Haroldo R. C. Reinhardt e Manoel Moacir Costa Macêdo, são engenheiros agrônomos

 

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