Relatório internacional indica que o planeta deve ultrapassar o limite de aquecimento, elevando a frequência de ondas de calor, secas e perdas agrícolas. Especialistas exigem ação imediata para proteger saúde e economia.
Desastres naturais, ondas de calor, secas históricas, chuvas intensas e perdas agrícolas serão alguns dos eventos extremos que se tornarão mais frequentes em um planeta mais quente do que o esperado. A conclusão foi divulgada diante do anúncio de que o mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento nos próximos anos.
O diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), André Guimarães, afirmou que a informação precisa ser tratada com a devida gravidade e provocar esforços urgentes para mudar o cenário.
“Hoje é um dia triste para a humanidade. Fomos derrotados por nós mesmos”
André Guimarães também destacou a possibilidade de ações capazes de redesenhar o futuro do planeta, ao defender mudanças nas práticas de uso de energia e de ocupação do território.
“Temos que reduzir urgentemente a queima de combustíveis fósseis, acabar com a conversão de florestas e mudar, de forma geral, nossa relação com a natureza”
Em evento promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), a presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Thelma Krug, ressaltou que a dimensão e a duração do aquecimento vão determinar o tamanho dos impactos sobre a sociedade e o meio ambiente. Segundo ela, quanto mais quente e mais tempo o planeta permanecer acima do limite de 1,5°C, maior será a necessidade de remoção de dióxido de carbono da atmosfera e mais difícil será reverter o aquecimento.
A temperatura global já está cerca de 1,37°C acima dos níveis pré-industriais, com avanço aproximado de 0,26°C por década, segundo Thelma Krug. Ela acrescentou uma estimativa temporal em relação ao ritmo atual de emissões.
“Fazendo uma conta bem rápida, teríamos três ou quatro anos para limitar o aquecimento, se continuarmos no ritmo atual de emissões”
O economista Sergio Margulis, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor da PUC-Rio, chamou a atenção para os prejuízos econômicos já observados com o aumento da temperatura. Ele citou perdas em infraestrutura, agricultura, saúde e energia que já representam 2% do PIB global e argumentou pela necessidade de acelerar a transição energética.
“Hoje o mundo gasta uns 2 trilhões de dólares com descarbonização. Só que a gente precisa aumentar esse patamar para 5 trilhões ou até um pouco mais. Não tem como fugir disso”
Margulis afirmou que os governos também terão de ampliar investimentos em adaptação, mas que a prioridade é reduzir as emissões na fonte, porque a adaptação não resolve o problema físico do aquecimento.
“Adaptação não resolve o problema físico do aquecimento global. Temos que parar com as emissões. Os países não podem ficar esperando a reversão do clima para agir”
O coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo, disse que o relatório da ONU é um alerta para limitar a ultrapassagem de 1,5°C e ressaltou a necessidade de interromper a expansão fósseis. Ele apontou a próxima COP31, que ocorrerá em cerca de dois meses, como uma oportunidade para decisões globais sobre o tema.
“Abandonar o objetivo de devolver os termômetros a 1,5ºC não é uma opção; seria assinar um pacto coletivo de suicídio”
“É preciso parar já a expansão fóssil no mundo, e a COP31, daqui a dois meses, é uma oportunidade de tomar essa decisão”
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