A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025, expôs um esquema de fraudes envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master e abalou a confiança na instituição pública do Distrito Federal. A crise tem efeitos diretos no cotidiano dos quase 5 mil empregados do BRB e na confiança de clientes e aposentados.
O diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal, Daniel Oliveira, concursado do BRB desde 2008, afirmou que “estamos todos, sociedade e trabalhadores, pagando a conta de uma decisão política de salvar o Master”. Oliveira disse à Agência Brasil que o sindicato tem recebido relatos sobre um ambiente de trabalho mais tenso, sobretudo para funcionários convocados a prestar depoimento à Polícia Federal e a auditores sobre negociações com o banco do empresário Daniel Vorcaro, preso desde o início de março.
As investigações incluem compra e venda de carteiras de crédito do Master, operações que chegaram a envolver bilhões de reais e culminaram com o anúncio da intenção do BRB de adquirir parte do Master por R$ 2 bilhões. O Banco Central rejeitou a operação em setembro de 2025 e, dois meses depois, determinou a liquidação extrajudicial do banco privado, quando a PF deflagrou a operação.
Segundo Oliveira, clientes passaram a procurar agências em busca de informações sobre a solidez do BRB e sobre riscos aos seus investimentos, e funcionários têm sido cobrados para tranquilizá-los. “Alguns chegam pensando em resgatar seu dinheiro. São os funcionários que estão fazendo o trabalho de convencer estas pessoas a confiarem na instituição e manterem suas aplicações”, afirmou o sindicalista.
O clima interno oscila entre “muita indignação e apatia”, na avaliação do sindicato. Oliveira relatou que denúncias sobre indícios de irregularidades nas negociações com o Master foram encaminhadas pelo sindicato ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários em novembro de 2024, quando ocorreu a primeira compra e venda de carteira que hoje está sob suspeita.
Riscos a funcionários, aposentados e imagem do banco
A situação também preocupa cerca de 3 mil aposentados do BRB cujas coberturas de saúde e previdência complementar dependem da saúde financeira do banco. A Previdência BRB informou dispor de patrimônio superior a R$ 4,39 bilhões, afirmando que esses recursos são segregados e geridos de forma autônoma.
O BRB destaca ainda ter mais de R$ 80 bilhões em ativos e mais de 10 milhões de clientes, e afirma que, com aportes de curto prazo, poderia absorver eventuais prejuízos. Contudo, a incerteza sobre o impacto real da compra de ativos do Master e a ausência de um plano de recuperação claro motivaram a agência Moody’s a rebaixar a nota do banco, apontando a necessidade de “injeção relevante de capital”.
Atrasos na divulgação do balanço consolidado de 2025 e a falta de transparência agravam a crise, segundo o economista e professor da UnB César Bergo, que alertou também para multas do Banco Central e da CVM que, somadas, podem superar R$ 50 mil por dia. Bergo citou quatro alternativas para enfrentar a crise, entre elas capitalização pelos sócios, empréstimos ou federalização do banco, além da privatização, e defendeu a necessidade de decisões rápidas.
Internamente, projetos estratégicos foram suspensos: a expansão do BRB para outras unidades da federação foi interrompida e a convocação dos cerca de 400 aprovados no concurso de 2022 ficou condicionada à resolução da crise. A nova gestão, liderada por Nelson de Souza, evitou falas públicas até a conclusão de auditorias internas e da apresentação do balanço de 2025, o que motivou a convocação dele pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Distrito Federal.
A governadora Celina Leão afirmou que a diretoria do BRB avalia a possibilidade de fechamento de agências em outras unidades da federação, mas assegurou que o banco “vai voltar à vocação dele, que é ser um banco regional e cuidar das pessoas” no Distrito Federal. Celina também declarou que “o banco público não vai quebrar” e que uma solução seria apresentada em até 30 dias.
O BRB tem divulgado comunicações oficiais por meio de avisos aos acionistas, comunicados ao mercado e fatos relevantes, orientando dirigentes e funcionários a evitar entrevistas. Em seu ambiente digital, a instituição lançou uma campanha afirmando que segue “firme e forte”, em pleno funcionamento.
A Agência Brasil procurou a assessoria do BRB para comentários e não obteve resposta até a publicação desta reportagem. A reportagem também não conseguiu contato com a defesa de Paulo Henrique Costa (PHC), ex-presidente do BRB, preso preventivamente na quarta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 16 de abril de 2026.
Com informações de Agência Brasil
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