Toda grande transformação econômica altera também a forma como um povo se reconhece. As identidades coletivas não surgem no vazio, nem dependem apenas de símbolos, bandeiras ou discursos. Elas resultam do modo como a sociedade trabalha, produz, distribui riqueza e organiza a vida coletiva.
Neste primeiro terço do século XXI, o Brasil atravessa uma profunda mudança de época. A antiga sociedade urbana e industrial vem cedendo lugar a uma nova sociedade de serviços, hiperconectada, digitalizada e cada vez mais fragmentada. Nesse cenário, a pergunta central deixa de ser apenas como voltar a sustentar o crescimento. Passa a ser também sobre qual identidade nacional pode sustentar um novo projeto de país?
Essa não é a primeira vez que o Brasil enfrenta uma transformação dessa magnitude. A própria história nacional pode ser lida como a sucessão de três formas de capitalismo, três modos de inserção na economia mundial e três grandes identidades coletivas.
A nação inacabada e o capitalismo agrário-exportador da República Velha.
Durante a República Velha (1889-1930), o Brasil estava profundamente integrado à ordem econômica liderada pela Inglaterra. O país ocupava uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho, exportando produtos primários e importando bens manufaturados modernos. O café, a borracha, o açúcar e outros produtos agrícolas financiavam a acumulação das oligarquias, enquanto as mercadorias industriais britânicas abasteciam o mercado interno. A dependência econômica produzia também fragilidade política e identitária.
O Brasil era um vasto território ainda pouco integrado, sem uma comunidade nacional plenamente constituída. O povo estava praticamente ausente do sistema político. O ex-escravizado, o trabalhador rural, o imigrante e as massas urbanas emergentes não eram reconhecidos como sujeitos da nação. A identidade coletiva era fragmentada, regional e oligárquica. Não existia um “nós” nacional, bloqueado pelo domínio de interesses regionais, vínculos locais, relações familiares e práticas patrimonialistas.
A invenção do trabalhador brasileiro pelo projeto nacional-desenvolvimentista.
A Revolução de 1930 inaugurou uma nova fase histórica, marcada pela modernização, ainda que conservadora, do capitalismo brasileiro. A crise da ordem liberal, aberta desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conviveu com a ascensão dos Estados Unidos à condição de principal potência econômica mundial. Esse novo contexto abriu outra possibilidade histórica para o Brasil.
Entre as décadas de 1930 e 1980, o país construiu uma das experiências mais bem-sucedidas de industrialização tardia do mundo. Sob a liderança estadunidense no segundo pós-guerra, o Brasil estruturou o Estado moderno e implementou a política de substituição de importações. Com isso, reduziu sua dependência de bens manufaturados externos e formou uma estrutura produtiva mais complexa.
A entrada de empresas estadunidenses e europeias não significou apenas desnacionalização da economia. Ela também permitiu a montagem de um sistema industrial integrado, envolvendo siderurgia, petróleo, química, máquinas, bens de capital, automóveis, infraestrutura e serviços modernos.
O Brasil urbano e industrial produziu, assim, uma nova identidade nacional, assentada numa narrativa poderosa de pertencimento. O trabalhador industrial, o servidor público, o professor, o técnico, o operário e o pequeno agricultor passaram a ser reconhecidos como parte de um projeto de país orientado pela industrialização, pela urbanização e pela modernização nacional.
Ainda que incompleta e desigual, havia uma ideia compartilhada de futuro. Com Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), a industrialização era compreendida como a invenção de um novo povo. Daí sua afirmação histórica: “Hoje os trabalhadores estão comigo no poder; amanhã serão o próprio poder”.
Pela primeira vez, o trabalhador tornou-se sujeito político e símbolo da modernização nacional. Juscelino Kubitschek (1956-1961) transformou os candangos de Brasília em heróis de uma epopeia desenvolvimentista. João Goulart (1961-1964) acrescentou a defesa das reformas de base como obra do povo organizado, indicando que o trabalhador deixaria de ser apenas mão de obra para ser reconhecido como construtor do futuro.
Mesmo durante a ditadura dos governos militares (1964-1985), apesar do autoritarismo, a ideia de uma missão nacional foi mantida. Os discursos do “Brasil Grande” e da “potência emergente” reforçavam a perspectiva de um destino comum, associando a identidade nacional ao desenvolvimento do país.
Essa fase histórica, contudo, começou a ruir na década de 1980, com o ajuste dos Estados Unidos à globalização neoliberal e suas repercussões no Brasil, como a crise da dívida externa, inflação elevada e o impasse político nacional. Nesse contexto, ganhou força a mobilização pela redemocratização e emergiu o ciclo político da Nova República, originalmente assentado na esperança de mudança e na retomada das reformas interrompidas em 1964.
A ruptura neoliberal e o retorno à especialização primário-exportadora.
A transição conduzida pelo alto após 1985 acabou impossibilitando o reformismo nacional-desenvolvimentista. Com a vitória eleitoral de Fernando Collor de Mello (1990-1992), houve a consagração de uma nova maioria política nacional orientada pelo receituário neoliberal.
A partir de 1990, a abertura comercial e financeira, as privatizações e a desregulamentação econômica alteraram profundamente a estrutura do capitalismo brasileiro. A desindustrialização precoce enfraqueceu o sistema produtivo construído ao longo do século XX. O Brasil voltou a reforçar uma especialização baseada na…
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