Sem representantes do governo Lula, economista da FGV será o único brasileiro na audiência do USTR em Washington. O evento define possíveis tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
O economista Gustavo Sampaio será o único brasileiro inscrito na audiência pública do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), marcada para o dia 6 de julho, em Washington. O evento faz parte de uma investigação americana sobre a possível aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
Até o momento, não há confirmação da presença de representantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sampaio, que é professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), expressa sua percepção de desconfiança do governo brasileiro em relação ao processo. A avaliação em Brasília é de que a audiência conflita com os critérios da OMC (Organização Mundial do Comércio) e não seria o fórum adequado para o debate.
“Mandei para alguns ministérios envolvidos o cartão oficial, avisando que eu tinha me candidatado para essa audiência e deixando em aberto. Até então, não tive nenhuma resposta oficial ou nenhuma orientação quanto a isso. Não parece que o governo está muito disposto a comparecer”, declarou Sampaio.
O professor reconhece as desconfianças e menciona a Seção 301, um mecanismo com amplo alcance investigativo. Entre as “práticas que oneram ou restringem” o comércio americano estão o Pix, decisões judiciais sobre redes sociais e o desmatamento ilegal.
Apesar das dificuldades, ele considera crucial a participação de representantes brasileiros. Sampaio enfatiza que o país precisa se defender para “não ser condenado à revelia”. “Por mais que você às vezes ache que o processo é desleal, que não é muito correto, acredito que vale a pena entrar e se defender. Se eles vão julgar adequado ou não é outra questão. Isso só eles podem fazer”, afirmou.
Sampaio também submeteu documentos ao USTR para defender o Pix como uma infraestrutura de Estado, e não apenas como um meio de pagamento. Ele argumenta que as tarifas propostas pelos EUA são “soluções analógicas para problemas digitais”, que podem encarecer produtos para consumidores norte-americanos.
“Se eles entenderem tudo tecnicamente, sem o clima político, com certeza haverá contribuições maiores dos dois lados. Grande parte do que estamos vendo são ruídos das eleições”, disse o economista.
A relação entre Brasil e EUA, que já dura mais de 200 anos e é marcada por pragmatismo, tende a superar desalinhamentos ideológicos entre os governos. Segundo apurações, o Palácio do Planalto acredita que as tarifas de 25% devem ser confirmadas, com poucas chances de progresso nas negociações. As justificativas utilizadas pelo governo de Donald Trump (Partido Republicano) para as medidas são vistas como inegociáveis.
Lula tem contestado as justificativas dos Estados Unidos, alegando que o país “mente” para taxar o Brasil. Recentemente, o ministro Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) participou de uma reunião virtual inconclusiva com Jamieson Greer, representante comercial norte-americano.
A audiência ocorre antes da decisão final do governo dos Estados Unidos sobre a imposição das tarifas. O USTR estabeleceu um cronograma que inclui o prazo final para pedidos de participação na audiência, que é 22 de junho, e o envio de comentários por escrito até 1º de julho.
As manifestações podem ser feitas pelo site oficial do USTR e fazem parte do processo formal, podendo influenciar a decisão final da investigação.

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