A Universidade de São Paulo (USP) está criando um mapa da distribuição de isótopos na madeira de árvores da Amazônia, uma ferramenta que poderá auxiliar na identificação de material extraído ilegalmente da floresta. O projeto, coordenado pelo professor Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, em Piracicaba, utiliza a razão entre diferentes isótopos, como oxigênio, carbono, nitrogênio e estrôncio, para determinar com precisão a região de origem da madeira.
A extração ilegal de madeira é uma das principais causas do desmatamento na Amazônia. Para enfrentar essa questão, órgãos ambientais e as forças de segurança têm buscado métodos para verificar a procedência da madeira apreendida. Atualmente, algumas das ferramentas utilizadas incluem análises da anatomia vegetal, mapas de ocorrência de espécies e registros burocráticos, como o Documento de Origem Florestal (DOF), que é a licença necessária para o transporte e armazenamento de madeira.
No entanto, esses métodos nem sempre garantem a legalidade da mercadoria. Por isso, o grupo de pesquisa da USP está aprimorando um novo método, que se baseia no uso de isótopos para restringir a área de onde a madeira foi extraída. O novo mapa, denominado isoscape, permitirá que a polícia compare a composição da madeira apreendida com a base de dados do projeto.
“Queremos fornecer para a Polícia Federal um modelo isotópico que ela possa usar. Para que, a partir dos isótopos, possa dizer se a procedência daquela madeira realmente é de onde consta no DOF”, explica Martinelli.
Uma das principais vantagens desse método é a impossibilidade de falsificação da composição da madeira, uma vez que os isótopos estáveis não podem ser manipulados. Quando o mapa estiver finalizado, a metodologia será de fácil aplicação por peritos fora dos laboratórios. O método se baseia no cálculo da razão entre dois pesos diferentes de um mesmo átomo, como oxigênio-16 e oxigênio-18, encontrados na celulose da madeira. Em um artigo publicado no periódico científico Molecules, a equipe demonstrou que a razão entre essas duas formas de oxigênio varia conforme a região de origem da madeira.
Entretanto, o uso isolado do oxigênio na investigação apresenta limitações. O projeto de doutorado de Isabela Maria Souza Silva, com apoio da Fapesp, está também mapeando isótopos de carbono e nitrogênio, com a intenção de adicionar o estrôncio ao modelo no futuro. Atualmente, a ferramenta enfrenta desafios geográficos, excluindo 80% da área florestal da Amazônia, ou seja, cerca de 3,2 milhões de km². Isso significa que 20% ainda representam uma área significativa para análise, equivalente a aproximadamente 640 mil km².
Outro desafio é a variabilidade dos resultados em árvores do arco do desmatamento, onde a extração ilegal reduz o número de amostras disponíveis para análise, dificultando a calibração do método. O grupo de pesquisa está se empenhando em aumentar a quantidade de amostras coletadas; até o momento, foram coletadas 800 árvores em 63 locais diferentes na Amazônia. Além disso, está em estudo a criação de mapas de concentração de elementos químicos, chamados de elementalscape, para refinar os dados obtidos.
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