JESUS CRISTO DOS CRISTÃOS E DO HUMOR

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Peixoto, 14 de Dezembro, 2019 - Atualizado em 19 de Dezembro, 2019


JESUS CRISTO DOS E DO HUMOR

Está-se vivenciando, no País, momento altamente polarizado, em que as pessoas agem por impulso e deixam, por vezes, escapar à razão seu proceder. O contexto da última eleição presidencial desencadeou uma série de ofensas, de todos os lados, fazendo com que os palanques não fossem desarmados, embora valores fossem destruídos, senão deturpados.

A paixão, em termos de militância política, não faz bem a nenhum dos segmentos. É preciso ser também racional, para buscar o respeito ao senso comum, que faz o “ethos” (conjunto de valores vitais que embasa o convívio) social de um povo. Em nome da defesa deste ou daquele partido, desta ou daquela postura ideológica, trocam-se tantas farpas que as mídias sociais estão eivadas de desonra à dignidade da pessoa. E tudo isso em nome de uma bandeira de ideias que deve, seja da esquerda, do centro ou da direita, impor-se como a única viável e possível.

Nos tempos antigos, em que se vivia sob o regime teocrático, a norma religiosa era quem ditava o agir político de muitos povos. Os agentes políticos eram deuses e, por conseguinte, inerrantes, absolutos e perfeitos. Suas normas eram oráculos sagrados cujo não cumprimento redundava na morte, como castigo. Foi, em determinadas épocas, um mal imenso e, noutras, um bem intenso.

Houve a separação, ao menos em tese, do trono e do altar. Entretanto, o espírito religioso dos povos permaneceu influenciando decisões da vida cotidiana, o que é muito comum. A religião é parte constitutiva da cultura dos mais variados povos. Se o estado é laico – e deve ser – as pessoas têm direito a ser religiosas, embora devam distinguir entre um ato de religião – dentro de seu grupo de afeição – e um ato civil, não necessariamente destinado a elogiar esta ou aquela postura religiosa.

No Brasil, a Constituição Federal assegura (Art 5º, IV) a liberdade de expressão, razão do estado democrático de direito. Sem a livre expressão, cai-se no estado de exceção, o que é de todo péssimo ao povo. Nenhuma ditadura, seja de direita, de esquerda, se justifica. Ninguém tem o direito de impor a uma nação inteira seu pensamento como única forma correta de agir ou de pensar. É um empobrecimento absurdo. Ao invés, deve-se favorecer uma educação de qualidade, para que o livre pensar e a liberdade de expressão ganhem novos adornos, com ideias que respeitem o senso comum de cada povo.

A mesma Constituição garante a liberdade religiosa (Art. 5º, VI), assegurando o direito a cultos e às respectivas liturgias. Da Carta Magna, (Art. 5º, IX) vem a garantia da liberdade artística, independentemente de censura ou licença. Há quem diga que a expressão artística é uma concretização da liberdade individual de pensamento e de expressão.

Diante do que vem ocorrendo no Brasil, no que atine às manifestações artísticas que envolvem símbolos sagrados – notadamente do cristianismo –, convém ponderar algumas considerações. Já que todos os direitos fundamentais têm o condão de ensejar a dignidade da pessoa, todos têm peso igual. Entretanto, quando um invade ou macula a esfera do outro, deve ser revisto, não por uma cruzada religiosa ou por uma censura imposta pelo estado, mas pelo próprio senso comum das pessoas. Aquilo que ajuda a respeitar a dignidade de cada pessoa – inserta neste ou naquele grupo religioso – deve-se valorizar. Caso contrário, deve-se desprezar. Anão aceitação já é a manifestação de repúdio, sem moralismos, sem censuras, sem alaridos. Pois estas expressões também afrontam à dignidade humana de outrem.

É digno de nota que os cultos de matizes afro-brasileiras têm sido, com muita frequência, alvo de ataques de grupos religiosos intolerantes que, em nome de sua fé, maculam, destroem e impossibilitam a manifestação religiosa daqueles grupos. E, frise-se, não estão ganhando a repercussão merecida!

A liberdade de expressão não pode ferir os conceitos religiosos. A liberdade religiosa não pode ferir a livre expressão artística. Esta não pode ferir a liberdade de expressão. Estão intrinsecamente ligadas à concretização da dignidade da pessoa. Todas são igualmente importantes. O que está faltando, na consciência da gente brasileira, é respeito ao diferente. Isso se chama intolerância, em todos os âmbitos. E quando chega a encetar bandeiras políticas cuja tônica é o fundamentalismo religioso, resvala-se para o ridículo da ofensa à cidadania.

O cristão autêntico (que respeita a todos) sabe distinguir o joio do trigo. Para ele, Jesus continua sendo o mesmo, destituído de qualquer acréscimo que a liberdade de expressão artística tente lhe impor. Nada vai abalar sua convicção religiosa. Bem assim aos religiosos de matiz afro-brasileira; nada vai lhes tirar sua convicção de fé. Os não cristãos têm direito à livre expressão, inclusive a de se manifestar sobre aspectos e símbolos religiosos. Entretanto, igualmente a quem professa um credo, não têm direito de desrespeitar o senso comum de um povo ou de um grupo.

A sacralidade de Cristo é tesouro dos cristãos. As expressões dos artistas são preciosidade deles. O ridículo é uma guerra ideológico-religiosa, por falta de respeito.

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