Sete em cada dez gestores de escolas públicas (71,7%) afirmam enfrentar dificuldades para dialogar no ambiente escolar sobre violências como bullying, racismo e capacitismo.
O dado é o principal resultado de uma pesquisa sobre clima escolar aplicada a 136 gestores de 105 escolas públicas — 59 municipais e 46 estaduais — e divulgada nesta quarta-feira (6 de maio de 2026). O levantamento foi conduzido pela Fundação Carlos Chagas (FCC), em parceria com o Ministério da Educação (MEC), e servirá de subsídio para a elaboração do novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras, previsto para lançamento na quinta-feira (7) pelo canal do MEC no YouTube.
Contexto e desafios apontados
Adriano Moro, coordenador do estudo e pesquisador do Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC, classificou o enfrentamento das violências como uma tarefa complexa, que demanda preparo, apoio institucional e ações planejadas. Moro destacou a naturalização de agressões por parte de adultos na escola, o que reduz a percepção de gravidade e pode resultar em omissão quando é mais necessária intervenção.
O pesquisador também observou que muitas unidades funcionam em contextos externos marcados por violência e que há dificuldades para envolver famílias e comunidades, transferindo à escola a responsabilidade por problemas que exigiriam atuação integrada.
Termo genérico e identificação das violências
Moro chamou a atenção para o uso amplo e indistinto do termo “bullying”, que, segundo ele, pode mascarar formas específicas de violência como racismo, capacitismo, xenofobia ou violência de gênero. Para o pesquisador, identificar corretamente o tipo de agressão é condição para respostas mais eficazes.
O estudo relaciona ainda o desenvolvimento de um clima escolar positivo à capacidade da escola de atuar de forma preventiva, colaborativa e intencional, em vez de apenas reagir a incidentes. Quando há confiança e escuta entre estudantes e adultos, fica mais fácil identificar problemas e intervir de maneira mais responsável, ressaltou Moro.
Outros achados da pesquisa
Além do desafio no enfrentamento às violências, a pesquisa encontrou:
- 67,9% dos gestores relataram dificuldades na aproximação entre escola, famílias e comunidade;
- 64,1% apontaram entraves na construção de bons relacionamentos entre estudantes;
- 60,3% indicaram dificuldade em promover o sentimento de pertencimento dos alunos;
- 60,3% reconheceram obstáculos na relação entre estudantes e professores;
- 49% identificaram desafios em promover sensação de segurança entre estudantes.
O levantamento mostrou também que 54,8% das escolas nunca realizaram um diagnóstico estruturado do clima escolar, ação considerada pelos pesquisadores como etapa essencial para orientar políticas de convivência e aprendizagem. Por outro lado, 67,6% das unidades disseram ter equipe responsável por ações de melhoria do clima; nas 32,4% sem essa equipe, as iniciativas ficam sob responsabilidade da gestão, que muitas vezes lida com sobrecarga e prioridades emergenciais.
A pesquisa foi aplicada entre março e julho de 2025 em escolas de dez estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo.
O estudo foi divulgado na mesma semana em que o governo federal recriou um grupo de trabalho (GT) por meio da portaria MEC nº 373, de 4 de maio de 2026, com a finalidade de subsidiar políticas de combate ao bullying e ao preconceito na educação. O GT, formado por áreas técnicas do MEC, terá prazo inicial de 120 dias para apresentar relatório com conclusões e propostas.
Com informações de Agência Brasil
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