Cláudia Serathiuk oferece apoio psicológico a 15 dos cerca de 2 mil brasileiros no conflito e acompanha 10 famílias afetadas. Membro da comunidade ucraniana em Curitiba, iniciou o trabalho com refugiados no Brasil.
Após mais de quatro anos de conflito, as Forças Armadas da Ucrânia têm buscado recrutar soldados internacionais, incluindo brasileiros que se alistam voluntariamente para lutar na guerra. Entre esses soldados, a psicóloga Cláudia Serathiuk, do Núcleo de Estudos da Ucrânia da USP, realiza atendimentos psicológicos para 15 dos cerca de 2 mil brasileiros envolvidos no conflito, além de acompanhar 10 famílias que têm vínculos com essas pessoas afetadas pela guerra.
Cláudia, que faz parte da comunidade ucraniana em Curitiba, começou a prestar assistência aos refugiados ucranianos no Brasil logo no início da guerra, em 2022. Com o aumento da demanda por atendimento psicológico a soldados e famílias enlutadas, ela e uma equipe de psicólogos voluntários passaram a atender esses grupos.
“Os sentimentos mais recorrentes que os brasileiros atendidos relatam são o sofrimento e o medo”, afirmou Cláudia.
A profissional destacou que muitos pacientes não falam ucraniano e nunca vivenciaram um ambiente de guerra, o que intensifica o sofrimento. Eles sentem saudade de casa, da comida e dos amigos, e enfrentam situações de extrema violência, como bombardeios e ataques de drones russos. “Não se espera isso. Você está lidando com a morte, com a mutilação, com a guerra em si”, explicou a pesquisadora.
Os relatos de destruição do país também são frequentes. Cláudia mencionou que soldados muitas vezes se escondem em casas abandonadas e presenciam explosões que podem resultar em mutilações. “Quem procura a gente são pessoas que querem sair de lá, numa situação de espera para poder vir embora”, contou. Esse estado de expectativa gera paranoia e preocupação, especialmente porque eles não entendem a língua local.
O luto entre os soldados é intenso, uma vez que são frequentemente divididos em duplas durante as ações. Cláudia observou que isso gera um forte apego entre os colegas, e a recuperação dos corpos pode ser complicada. “O esforço de guerra é voltado para proteger o território e os civis, então esse lado acaba ficando realmente complicado”, destacou.
Apesar da gravidade da situação, a psicóloga notou uma melhora na condição emocional dos soldados após as sessões de terapia. “A gente tem também esse trabalho muito específico com as famílias enlutadas. É um trabalho longo que tem dado resultados”, afirmou. Cláudia ressaltou que a guerra é um choque, não apenas para os soldados, mas também para ela, que escuta os relatos diretamente. “A guerra é triste, é devastadora, degrada a condição humana”, concluiu.
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