Um cirurgião plástico foi condenado a pagar uma indenização por danos morais e materiais a uma paciente que perdeu a visão após um procedimento de lipoaspiração em São Paulo. A decisão foi proferida pela 7ª Vara Cível de São Paulo, no final de julho. O juiz destacou a negligência e omissão do médico Renato Tatagiba Garcia.
A paciente, identificada como Shirin Saraeian, conheceu o cirurgião por meio das redes sociais, onde possui quase 200 mil seguidores. Em 30 de abril de 2021, ela se submeteu a uma cirurgia estética de lipoaspiração e abdominoplastia com enxerto de glúteo, realizada no Saint Peter Hospital, localizado na Vila Clementino, na zona oeste da capital paulista.
Após o procedimento, Shirin perdeu totalmente a visão do olho esquerdo e dois terços da visão do olho direito, o que a levou a perder o emprego que mantinha há quase 20 anos, visto que não conseguia mais ler e escrever.
A Justiça considerou parcialmente procedente a ação, que pedia R$ 1.480.892,50 em indenizações. O médico foi condenado a pagar R$ 162,1 mil (100 salários mínimos) por danos morais, R$ 65,4 mil por danos materiais e uma pensão mensal vitalícia no valor de três salários mínimos (quase R$ 5 mil), a ser paga a partir da data da cirurgia, com atualização automática de acordo com o salário mínimo vigente.
Por outro lado, o hospital foi absolvido, e Shirin deverá arcar com as custas processuais e honorários advocatícios da instituição. O caso já se arrasta por mais de cinco anos.
A sentença relata que Shirin não apresentava comorbidades e, no dia seguinte à cirurgia, relatou sintomas como tontura e olhos arroxeados ao médico, que não realizou uma avaliação, afirmando que se tratava de uma situação normal. Além disso, ela recebeu alta hospitalar sem orientações pós-operatórias e sem a realização de avaliações clínicas ou laboratoriais.
Dois dias após a cirurgia, a paciente começou a apresentar perda súbita da visão do olho esquerdo e não teve sucesso em suas tentativas de contato com o Dr. Renato. Posteriormente, começou a ter dificuldades para enxergar com o olho direito. Uma funcionária da Clínica Femme, da qual Renato é sócio, indicou que não havia relação entre a cirurgia e os sintomas.
Após a perda total da visão no olho esquerdo, Shirin buscou novamente o médico, sendo orientada por uma funcionária a procurar um neurologista, que levantou a hipótese de uma anemia aguda pós-cirúrgica. Em um hospital, foi constatado que a paciente havia perdido cerca de 60% do sangue durante a cirurgia. Essa anemia levou à isquemia do nervo óptico, uma condição irreversível, conforme especialistas ouvidos durante o processo.
Após ser internada novamente devido à anemia, Shirin recebeu alta médica confirmando a cegueira permanente no olho esquerdo e a perda quase total da visão no olho direito. O juiz observou que, em uma consulta no dia 27 de abril, Renato apenas examinou o abdômen, elogiando os resultados e afastando sua responsabilidade pela perda visual.
Durante o processo, o Saint Peter Hospital alegou que não tinha responsabilidade sobre a situação, argumentando que a equipe médica não tinha vínculo com a instituição, já que apenas o centro cirúrgico foi alugado para o procedimento. O cirurgião, por sua vez, defendeu que esclareceu os riscos do procedimento e que a situação foi imprevisível.
No entanto, a perícia concluiu que o médico não seguiu o padrão técnico esperado, e sua omissão foi fundamental para o desfecho trágico. O juiz enfatizou que a paciente buscou assistência médica repetidamente após a cirurgia, mas obteve respostas evasivas, quando deveria ter recebido uma avaliação imediata.
A decisão ainda cabe recurso ao Tribunal de Justiça de São Paulo. O advogado de Shirin informou que irá entrar com recurso.
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