Incidente envolvendo menina de sete anos e seu comportamento involuntário gera indignação e debate sobre sensibilidade
“Insensibilidade” e “constrangimento” foram as palavras usadas pela auxiliar administrativa Kelly Vieira para descrever a dolorosa situação que viveu na manhã desta quarta-feira, 23 de julho de 2025. Ao tentar voltar para casa com a filha Maria Esther, de 7 anos, uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), após uma sessão de terapia em uma clínica no bairro Suíça, em Aracaju, a família foi surpreendida pela atitude de um motorista de aplicativo.
Segundo Kelly, ao entrarem no veículo, Maria Esther colocou o pé no banco, um movimento involuntário que ela frequentemente faz para se acomodar. No entanto, esse simples gesto foi suficiente para que o motorista cancelasse a corrida antes mesmo de dar a partida.
“Ela sempre tem essa mania de se posicionar com o pé para entrar no carro. Não é com vontade, é involuntário, não é para sujar o carro de ninguém. Ela colocou o pé e sentou. Já estava até sentada quando ele disse assim: ‘eu vou cancelar, senhora’. Eu perguntei: ‘mas por que?’. Ele disse: ‘ela botou o pé, você viu e deixou'”, relatou Kelly, visivelmente abalada.
A mãe conta que a interrupção inesperada gerou confusão e choro na criança, que tem uma forte rigidez de planos. “Na cabeça dela, quando entra num carro, é para ir embora. Ela saiu da clínica para entrar no carro e para ir embora. Então ela começou a chorar dentro do carro, não queria descer. Eu estava sozinha e tive que largar todas as coisas na porta da clínica, na calçada, porque não tive como chamar ninguém para me ajudar”, completou Kelly, descrevendo momentos de medo e angústia ao tentar tirar a filha do veículo.
Uma câmera de segurança no local registrou o momento em que Kelly coloca a filha no carro e é informada do cancelamento. Mesmo ciente de que a criança era autista, o motorista permaneceu indiferente. “Ele foi muito grosso, insensível total. Ele não precisava ter feito isso, cancelar por causa disso. Ele podia chamar a minha atenção e eu ia explicar ele. Ainda disse a ele que minha filha era autista”, lamentou a mãe.
Kelly afirma que usa o aplicativo diariamente para retornar das terapias com a filha, mas agora com apreensão. “Eu tive medo de ele arrastar o carro e levar ela, fiquei agoniada. Eu tentei tirar ela, explicando a ela e ela ficou chorando, eu tive que forçar para puxar ela e fiquei me tremendo. Ele viu eu puxando ela, mas não se manifestou em nada. Viu tudo e foi muito frio. Quando eu tirei ela no carro, ele foi embora. Eu sempre fico atenta para que ela não faça nada. Eu tenho medo, eu ando de Uber, mas eu ando com medo, porque muita gente não conhece, não sabe como é o autista, só a gente que passa”, finalizou.
Repercussão do Caso
O incidente gerou forte repercussão. A Associação dos Motoristas por Aplicativo de Sergipe classificou o caso como “covardia”. Por outro lado, a Associação dos Amigos Autistas, através de Adenilson dos Reis, não se pronunciou oficialmente por nota, mas em contato telefônico, afirmou: “eu não estava lá no carro para ver o que aconteceu, essa é a minha opinião. Nem todos os profissionais estão aptos a trabalhar com uma criança dessa que não obedece, que se irrita, que quer fazer o que quer.”
O episódio levanta um importante debate sobre a necessidade de maior sensibilidade, treinamento e preparo por parte dos prestadores de serviço para lidar com pessoas com deficiência, garantindo acessibilidade e respeito no transporte por aplicativo.
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