Em Aracaju, o Centro de Referência no Atendimento Infantojuvenil de Sergipe (Crai/SE), vinculado à Secretaria de Estado da Saúde (SES) e instalado no anexo da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, tornou-se ponto de apoio para crianças e adolescentes de 0 a 19 anos incompletos que sofreram violência sexual. A unidade é a primeira do Norte e Nordeste e a segunda do país com estrutura física exclusiva e equipe especializada para esse público.
Desde a inauguração, o serviço registra em média seis novos casos por dia. Antes de sua criação, as vítimas eram atendidas em meio aos demais serviços da maternidade. “Hoje o fluxo é diferenciado, garantindo privacidade, escuta qualificada e integração entre os profissionais para evitar a revitimização”, explica a gerente do centro, enfermeira Angélica Machado de Aragão.
Atendimento multiprofissional
A equipe conta com ginecologistas, psicólogas, assistentes sociais e profissionais da área policial responsáveis pelo registro de boletim de ocorrência e solicitação de perícia. A maior parte do quadro é composta por mulheres, estratégia adotada para reduzir constrangimentos durante a avaliação clínica.
O espaço foi projetado com ambiente lúdico, adequado à linguagem infantil, para que o primeiro contato não aprofunde o trauma. “A criança chega fragilizada e precisa ser acolhida em um local que dialogue com seu universo”, destaca Angélica.
Números do serviço
Em 2025, o Crai contabilizou 7.585 atendimentos. Nos três anos de funcionamento, ultrapassou 20.600 registros, que incluem consultas médicas, acompanhamento psicológico, serviço social, administração de medicamentos, coletas de material, boletins de ocorrência e perícias.
Fluxo e horários
O centro funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, em regime de porta aberta. Casos chegam por demanda espontânea, Conselho Tutelar, delegacias, escolas e unidades de saúde. Violências ocorridas há até 72 horas recebem atendimento imediato; situações com prazo superior passam por agendamento para avaliação completa, aplicação de antirretrovirais e acolhimento psicossocial.
Todo o processo é sigiloso. Prontuários e registros psicológicos são restritos à equipe, e, após o atendimento inicial, a criança é encaminhada à Atenção Primária do município de origem para seguimento próximo de casa.
Escuta protegida
Para a assistente social Maria de Fátima Moreira, o primeiro contato define a confiança da família. “A maioria dos abusos ocorre dentro de casa. Orientamos os responsáveis a observar mudanças de comportamento e conversar sobre limites do corpo”, afirma.
Impactos e tratamento
A psicóloga Marluce Santos relata que o abuso afeta sono, alimentação e desempenho escolar. O tratamento psicológico dura, em média, seis meses, podendo ser estendido e, em alguns casos, complementado com acompanhamento psiquiátrico.
Rede integrada
O Crai faz parte da Rede de Cuidado e Proteção Social de Sergipe, que reúne SES, Secretaria da Segurança Pública (SSP), Secretaria de Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic), Ministério Público do Trabalho, Tribunal Regional do Trabalho, Ministério Público de Sergipe e outros órgãos. No próprio centro é possível registrar boletim de ocorrência e solicitar perícia, evitando deslocamentos.
Em fins de semana e feriados, casos emergenciais devem recorrer à rede hospitalar, UPAs, Delegacias de Atendimento a Grupos Vulneráveis, Conselho Tutelar ou aos telefones 181 e 190. Também estão disponíveis o Disque 100 e o CVV 188. Contatos direto com o Crai podem ser feitos de segunda a sexta, das 7h às 19h, pelos números (79) 3225-8650, (79) 3225-8654 ou pelo e-mail [email protected].
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