TRANSMISSÃO: Band
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a farmacêutica Cristália, desenvolveram a polilaminina, substância que tem despertado atenção por seu potencial para auxiliar na recuperação de pessoas com lesão medular. Apesar dos resultados iniciais promissores, especialistas afirmam que ainda são necessários ensaios clínicos controlados para comprovar segurança e eficácia.
Descoberta e mecanismo
A polilaminina foi identificada de forma acidental pela professora Tatiana Sampaio Coelho durante estudos sobre a laminina, proteína presente em diversas estruturas do corpo. Em vez de se separar, as moléculas da laminina passaram a se agregar formando uma rede — a polilaminina — fenômeno que, segundo a pesquisadora, ocorre no organismo porém nunca havia sido reproduzido em laboratório.
No sistema nervoso, as lamininas servem de suporte à movimentação dos axônios, prolongamentos dos neurônios responsáveis pela condução de sinais. A hipótese em investigação é que a polilaminina poderia oferecer uma matriz permitindo que axônios rompidos em fraturas da medula voltem a crescer e restabeleçam a condução entre cérebro e membros.
Estudo-piloto e resultados preliminares
Após décadas de pesquisa pré-clínica, os pesquisadores aplicaram a substância em um estudo-piloto realizado entre 2016 e 2021 com oito pacientes que sofreram lesão medular completa em diferentes níveis após quedas, acidentes de trânsito ou ferimentos por arma de fogo. Sete dos participantes também foram submetidos à cirurgia de descompressão da coluna, procedimento realizado até três dias após a lesão.
Dois participantes morreram ainda no hospital devido à gravidade das lesões e um faleceu posteriormente por complicações. Dos cinco sobreviventes que receberam polilaminina e passaram pela descompressão, todos apresentaram ganho motor em avaliações realizadas com a escala AIS (de A a E). Quatro evoluíram de A para C — recuperando sensibilidade e movimentos de forma parcial — e um alcançou o nível D, com sensibilidade e funções motoras próximas do normal.
Um dos casos relatados foi o de Bruno Drummond de Freitas, tetraplégico após fraturar a coluna cervical em 2018. Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, Bruno afirmou ter sentido movimento no dedão do pé semanas após a cirurgia combinada com a aplicação da polilaminina. Após longo processo de reabilitação na AACD, ele voltou a andar, mas mantém limitações em alguns movimentos das mãos.
Os autores do estudo destacam que parte das recuperações pode ocorrer espontaneamente: estudos indicam que até 15% de pacientes com lesão completa podem recuperar movimentos sem intervenção. Além disso, diagnóstico e classificação iniciais podem ser afetados por inflamação e edema.
Próximas fases dos testes
A Anvisa autorizou o início da fase 1 dos testes clínicos da polilaminina. Ao contrário do modelo tradicional — em que a fase 1 envolve indivíduos saudáveis — a substância será aplicada por injeção diretamente na medula de pacientes com lesão medular aguda. Segundo Tatiana Sampaio Coelho, os testes devem começar neste mês e ser concluídos até o fim do ano.

O estudo de fase 1 envolverá cinco voluntários entre 18 e 72 anos com lesões torácicas completas entre T2 e T10 e indicação cirúrgica realizada em menos de 72 horas após o trauma. Os procedimentos ocorrerão no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. A pesquisa vai monitorar eventos adversos, funções neurológicas e exames laboratoriais para detectar toxicidade.
Se avançar para fase 2, a equipe pretende avaliar duas doses diferentes. A conclusão de todas as fases está estimada pela equipe em cerca de dois anos e meio, embora detalhes da fase 3 ainda não tenham sido definidos.
Ética, regulação e desafios
Especialistas consultados no processo explicam que a fase 3 geralmente requer maior número de participantes, randomização e grupo controle para comparar resultados. No entanto, características da lesão medular — janela curta para aplicação do tratamento e resposta que pode demorar a surgir — dificultam a logística e a eventual oferta do tratamento ao grupo controle caso a substância se prove eficaz.
A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), Meiruze Freitas, e outros especialistas ressaltam que Anvisa e comitês de ética acompanham os estudos para garantir boas práticas clínicas e proteção aos participantes. A Lei 14.874, sancionada em 2024, reduziu prazos de análise: comitês de ética têm até 30 dias e a Anvisa até 90 dias para responder a pedidos de avaliação.
Os pesquisadores ressaltam que a confirmação da eficácia da polilaminina dependerá do cumprimento rigoroso das fases de pesquisa e de avaliações independentes.
LEIA TAMBÉM
Zé Gotinha vacina desmontadores do Rock in Rio na Cidade do Rock
17 de setReconhecimento Histórico: Hospital de Cirurgia homenageia Márcia Guimarães por liderança na reconstrução da instituição centenária
16 de setPesquisa aponta queda na prevalência de HPV entre jovens após vacinação
15 de setReceba as notícias no seu WhatsApp
Entre no nosso canal oficial e fique por dentro de tudo que acontece em Sergipe
Entrar no canal →

