No meu Cantodoamaistempo, aquele canto encantado onde o vento parece saber histórias antigas, a carnaubeira sempre foi presença de luz, sombra e memória. A carnaúba, altiva, erguia-se diante da nossa casa como uma sentinela de ternura, e o carnaubal inteiro parecia respirar conosco.
Havia ali uma magia natural, simples e profunda, que preenchia os dias e moldava a alma. Nas tardinhas, quando o vento soprava sereno, as palmas, nossas queridas palhas, dançavam e se tocavam, criando aquela música delicada, única, que só o nosso lugar sabia produzir. Uma beleza que dispensava explicação, porque falava direto ao coração. Esse cenário era também o palco do nosso amor de família.
Recordo-me de papai e mamãe, sempre presentes com seus gestos de cuidado. Lembro dos meus irmãos, correndo, inventando mundos, vivendo a infância com a liberdade que só o interior dá. E como esquecer os parentes e aderentes que acorriam à nossa casa? Gente querida que enchia o terreiro de conversas, risos, cheiros e histórias, tornando aquele canto ainda mais vivo e afetuoso.

Tudo isso formava o retrato do meu tempo. Um tempo que não volta, mas permanece. Um tempo que me constituiu. Um tempo em que aprendi a sentir a vida com delicadeza. Hoje, quando fecho os olhos, ainda escuto o murmúrio das palmas, ainda vejo o brilho das carnaubeiras, ainda sinto o abraço do Cantodoamaistempo. E a saudade chega ávida, doce lembrando-me que fui abençoado por nascer onde até o vento canta, onde até a memória tem cheiro de terra, calor de sol e o som do badalar do sino da Igreja chamando para oração.

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