Os Estados Unidos estão prestes a perder a liderança mundial nas exportações agrícolas para o Brasil, de acordo com um artigo do jornal americano Financial Times, publicado nesta terça-feira (21). Essa possível mudança é atribuída a uma combinação de guerras comerciais, queda nos preços das commodities e transformações estruturais no mercado global.
A reportagem destaca uma “queda da superpotência agrícola da América”, apoiando-se em dados da American Farm Bureau Federation. Este levantamento estima que os produtores americanos poderão enfrentar prejuízos médios de US$ 341 por hectare de soja em 2027, além de perdas de aproximadamente US$ 413 por hectare de milho, US$ 358 por hectare de trigo e US$ 1.003 por hectare de algodão.
Enquanto isso, o Brasil se aproxima de assumir a liderança nas exportações agrícolas. Em 2025, as exportações dos EUA em produtos agropecuários totalizaram US$ 171 bilhões, apenas US$ 2 bilhões acima dos US$ 169 bilhões registrados pelo Brasil. Com um crescimento de 6% nas exportações brasileiras no primeiro semestre deste ano, alcançando US$ 87 bilhões, analistas acreditam que 2026 pode marcar a ultrapassagem definitiva.
O artigo atribui parte dessa mudança às políticas comerciais adotadas durante a administração de Donald Trump. A guerra tarifária iniciada em 2018 fez com que a China reduzisse drasticamente as compras de soja americana e ampliasse as importações brasileiras. Economistas que já integraram o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) mencionaram que o avanço do Brasil ocorreu de forma mais rápida do que as projeções indicavam.
Apesar dos bilhões de dólares em subsídios oferecidos aos agricultores durante o primeiro mandato de Trump, muitos produtores afirmam que o problema não reside na falta de apoio financeiro, mas na perda de mercados internacionais. Eles defendem a necessidade de acordos comerciais em vez de pagamentos diretos do governo. Produtores relataram que estão produzindo energia em vez de alimento, referindo-se à competitividade de preço dos produtos brasileiros.
A reportagem também indica que a agricultura americana está cada vez mais dependente do mercado interno, com cerca de 40% da produção de milho dos EUA destinada ao etanol, sustentada por políticas públicas e exigências de biocombustíveis. Agricultores afirmam que estão produzindo mais energia do que alimentos.
Por outro lado, o Brasil consolidou sua posição como maior produtor mundial de soja, carne bovina e carne de frango, tendo ultrapassado os EUA nas exportações de algodão. Fatores como o potencial de três safras em várias regiões, disponibilidade de terras, avanços tecnológicos e expansão da produção em Mato Grosso, um polo de cultivo de grãos, são destacados.
Outro efeito identificado é a concentração fundiária. Propriedades menores estão desaparecendo, sendo incorporadas por fazendas maiores, o que reduz o número de famílias no campo e enfraquece comunidades rurais, escolas, igrejas e o comércio local. Em contrapartida, cidades como Sorriso (MT) e Lucas do Rio Verde (MT) cresceram impulsionadas pelo agronegócio, embora essa expansão também traga preocupações ambientais, especialmente relacionadas ao desmatamento.
A conclusão do artigo é de que a disputa entre Brasil e Estados Unidos deixou de ser apenas econômica e passou a ter implicações geopolíticas. Agricultores americanos afirmaram que os compradores internacionais agora recorrem aos EUA apenas quando o Brasil enfrenta problemas de oferta. Embora muitos ainda apoiem Donald Trump, há uma crescente preocupação com a falta de resultados concretos da estratégia comercial e com o enfraquecimento da competitividade agrícola americana diante do avanço brasileiro.
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