Pesquisa expõe rede de tráfico de arte khmer que abasteceu museus e colecionadores ocidentais. Douglas Latchford, morto em 2020, foi peça-chave no esquema por mais de 60 anos.
Um estudo revela que muitas esculturas khmer, encontradas em museus e residências de colecionadores no Ocidente, foram extraídas ilegalmente do Camboja. O britânico Douglas Latchford, falecido em 2020, figura como um dos principais intermediários dessa prática.
Latchford, respeitado no meio, era um vendedor de antiguidades e estudioso autodidata, conhecido por seus livros sobre a arte do Império Khmer, que floresceu entre os séculos IX e XV no Sudeste Asiático. De 1960 até sua morte, forneceu a colecionadores diversas obras, incluindo frisos ornamentados e estátuas de divindades hindus e budistas.
No entanto, a origem dessas peças, muitas vezes danificadas ou cobertas de terra, levantou suspeitas apenas nos últimos anos de sua vida. Quando indagado, Latchford apresentava documentação que tranquilizava os compradores. Contudo, a situação mudou quando autoridades dos Estados Unidos começaram a investigar a origem de artefatos retirados do Camboja durante períodos de conflito.
As investigações revelaram que muitas das obras de arte que Latchford comercializava foram saqueadas de sítios arqueológicos, como Angkor Wat e Koh Ker. Pequenos grupos de saqueadores, com auxílio de militares locais, utilizavam ferramentas rudimentares para remover as peças e transportá-las até a Tailândia, onde Latchford as inseria no mercado global de arte com registros falsificados.
Em 2019, Latchford foi indiciado por acusações que incluíam fraude e contrabando, mas sua saúde debilitada na Tailândia levantou dúvidas sobre sua capacidade de enfrentar as acusações em um tribunal. Após sua morte, seu nome se tornou sinônimo de escândalo no mercado de antiguidades, tornando qualquer obra associada a ele praticamente intocável.
Nos últimos anos, instituições renomadas, como o Museu Metropolitano de Arte de Nova York, devolveram ao Camboja obras ligadas a Latchford, o que, segundo o jornalista Matthew Campbell, resultou na quase extinção do mercado de arte khmer. Em seu livro, “The Man Who Stole the Gods”, Campbell detalha as acusações e o impacto no setor.
“O valor efetivo de venda dessas peças hoje seria zero, porque você não consegue vendê-las”, afirmou Campbell.
Latchford sempre negou as acusações, alegando que muitas peças foram encontradas por agricultores. Contudo, sua filha, Julia, devolveu mais de 100 artefatos ao governo cambojano e reconheceu que a repatriação era a melhor forma de lidar com o legado problemático do pai.
A situação de Latchford reflete um dilema ético no mundo da arte, onde a complexidade da origem das peças levanta questões sobre responsabilidade e reparação. Apesar da falta de condenação formal, o caso continua a gerar discussões sobre o comércio de antiguidades e a necessidade de preservar a história cultural do Camboja.
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