Diante do bloqueio de apps como WhatsApp, cidadãos russos adotam táticas criativas para driblar o controle digital do Kremlin. VPNs e aparelhos duplos viram rotina.
Em um café tranquilo, conhecido por seu Wi-Fi gratuito e bom café, uma designer de interiores russa acessa uma rede privada virtual (VPN) para conversar com amigos no exterior pelo aplicativo de mensagens WhatsApp, que é bloqueado na Rússia. Após essa comunicação, ela desliga a VPN para comprar uma passagem no site da Ferrovia Russa, que proíbe o acesso a usuários que utilizam ferramentas para ocultar sua localização. Em seguida, ela utiliza um segundo celular para verificar mensagens de clientes no aplicativo controlado pelo Estado, MAX.
Desde que o Kremlin intensificou o controle sobre a internet em 2026, os russos têm buscado soluções cada vez mais complexas para contornar o monitoramento estatal e as restrições a aplicativos populares estrangeiros, como o WhatsApp e o Telegram. Essa repressão, considerada a maior sob o governo do presidente Vladimir Putin, já causou interrupções em serviços bancários, de transporte e comércio eletrônico, gerando descontentamento na população, especialmente com as eleições parlamentares programadas para setembro.
O crescente descontentamento, agravado por aumentos de preços e impostos, além do prolongamento da guerra, é visto como um dos fatores que contribuíram para a queda na popularidade de Putin, que passou de 75,1% em fevereiro para 65,6% em abril. Atualmente, sua popularidade está em torno de 67%. Em resposta, autoridades têm promovido o uso de alternativas estatais a aplicativos estrangeiros como parte de uma campanha por “soberania digital”, embora usuários demonstrem cautela em relação ao MAX, com receios de que o aplicativo possa ser utilizado para rastreamento.
“Claro que tudo isso é uma enorme dor de cabeça, mas o que mais podemos fazer?” disse Irina, a designer de interiores de 41 anos, que optou por ser identificada apenas pelo primeiro nome. “Você se acostuma e passa os dias ligando e desligando VPNs, alternando diferentes mensageiros e trocando entre celulares para usar os aplicativos e sites necessários.”
O uso de VPNs tem aumentado significativamente, com 9,2 milhões de downloads dos cinco serviços mais populares na Google Play apenas em março, o que representa um aumento de 14 vezes em relação ao mesmo mês do ano anterior. “Nunca vimos esse tipo de taxa de adoção antes”, afirmou Sarkis Darbinyan, ativista russo pela liberdade na internet. O Kremlin, por sua vez, defende o controle da internet como necessário no que considera um confronto existencial com o Ocidente sobre a Ucrânia.
No entanto, Putin orientou seu governo em abril a agir com mais cautela, argumentando que focar apenas em proibições e restrições é “contraproducente”. Apesar das limitações, muitos russos se acostumaram a um certo grau de liberdade online, embora a situação tenha mudado drasticamente desde o início da guerra na Ucrânia. O FSB, serviço de segurança da Rússia, tem ordenado que empresas de telecomunicações desliguem a internet móvel em algumas regiões, alegando que isso é necessário para evitar a navegação de drones de ataque ucranianos, enquanto a lista de aplicativos e sites bloqueados continua a crescer.
Os aplicativos WhatsApp e Telegram acusaram o governo russo de tentar forçar os usuários a adotarem alternativas menos seguras e controladas pelo Estado, como o MAX. As interrupções na conectividade se intensificaram em março, com uma queda de quase três semanas em Moscou, o que gerou frustração entre altos burocratas que dependem da internet para coordenar votos para o partido governista Rússia Unida.
Embora o regime possa garantir resultados eleitorais desejados, a questão central permanece: será que o processo eleitoral será tranquilo? Essa dúvida foi levantada por Tatiana Stanovaya, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center.
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