Uma semana após os devastadores terremotos na Venezuela, o número oficial de mortos ainda gera controvérsias entre a população local e especialistas. A líder interina do país, Delcy Rodríguez, anunciou nesta quinta-feira (2) que o total de vítimas fatais subiu para 2.595, um aumento de 300 em relação ao dia anterior. No entanto, muitos acreditam que essa cifra está aquém da realidade.
Uma médica legista, que preferiu não ser identificada por temer represálias, expressou ceticismo em relação ao número divulgado pelo governo, afirmando que ele representa “nem sequer um terço do total real”. Ela relatou que o necrotério improvisado onde trabalha, na cidade portuária de La Guaira, está lidando com cerca de 400 corpos por dia, muitos dos quais estão irreconhecíveis devido ao estado avançado de decomposição.
Com a falta de espaço nos caminhões refrigerados, os corpos estão sendo deixados ao ar livre, expostos ao sol, o que acelera o processo de decomposição. A situação se agrava ainda mais com a ausência de informações oficiais sobre desaparecimentos, levando venezuelanos no exterior a criar meios não oficiais para relatar casos de pessoas desaparecidas.
A legista descreveu a situação em La Guaira como “indescritível”, ressaltando que as famílias de baixa renda foram as mais atingidas pelos terremotos. Muitas delas estão trazendo os corpos de parentes que conseguiram resgatar dos escombros, uma vez que as equipes de emergência não conseguem dar conta de todos os resgates.
“Elas mesmas trazem seus mortos, porque a Defesa Civil, os bombeiros e até os serviços de emergência não conseguem dar conta de resgatar todos esses corpos”, afirmou a legista.
Apesar do aumento no número de mortos, Delcy Rodríguez assegurou que nenhum corpo será enterrado em valas comuns. Estimativas iniciais do Serviço Geológico dos EUA apontavam para uma alta probabilidade de que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido devido à sequência de terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5.
O coordenador das Nações Unidas para a Venezuela, Gianluca Rampolla del Tindaro, também comentou sobre a situação, afirmando que é “sem dúvida” que o número de mortos é superior ao que foi divulgado. Críticos do governo acusam a administração de tentar minimizar a dimensão da tragédia, uma desconfiança que remete a eventos passados, como deslizamentos de terra em 1999, quando o governo não divulgou números oficiais de vítimas.
A oposição, representada por figuras como María Corina Machado, denunciou em redes sociais que o governo está ocultando informações e bloqueando comunicações. Machado, que vive em exílio, tentou retornar ao país para auxiliar nas ações de socorro, mas afirmou que sua entrada foi impedida pelas autoridades.
Enquanto isso, a organização de direitos humanos Provea declarou que os “números oficiais do terremoto geram mais dúvidas do que respostas”, pedindo por maior transparência. Por outro lado, o sociólogo David Smilde sugeriu que não há evidências concretas de que o governo esteja intencionalmente manipulando os números, destacando a grande quantidade de ajuda internacional que a tragédia atraiu.
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