Na quinta-feira 4 de junho de 2026, quatro pessoas morreram no Povoado Cafuz, em Areia Branca, depois de uma colisão frontal na BR-235. Menos de seis meses antes, em dezembro de 2025, outro acidente no mesmo município matou um motorista e deixou onze feridos. Em novembro, três vidas foram ceifadas em Itabaiana. Os números não são coincidência — são sintoma.
Uma Rodovia que acumula vítimas
A BR-235 é a espinha dorsal do interior sergipano. Ela conecta Aracaju a Itabaiana, a Carira e, dali, ao Nordeste profundo, cruzando 114,8 quilômetros que concentram boa parte do fluxo comercial, agrícola e humano do estado. Só no primeiro semestre de 2025, a Polícia Rodoviária Federal registrou 126 ocorrências nessa rodovia — a segunda mais perigosa de Sergipe, atrás apenas da BR-101. Esses números traduzem uma realidade que quem mora no interior sergipano já conhece de cor: a BR-235 mata.
A pista simples, os acostamentos estreitos, a ausência de iluminação noturna em trechos críticos e o tráfego misto de caminhões pesados e veículos de passeio formam uma combinação letal. O DNIT até executa contratos de manutenção — o atual, de R$ 47,1 milhões, realiza tapa-buracos e roçadas. Mas remendar asfalto não resolve o problema estrutural. É como tratar hemorragia com curativo.
Promessas que envelhecem no papel
Em abril de 2024, o governador Fábio Mitidieri comemorou o edital federal para a duplicação do trecho Aracaju–Itabaiana. Em março de 2025, o Governo Federal anunciou, durante visita a Aracaju, que os projetos de engenharia seriam contratados e iniciados em maio. Estamos em junho de 2026: os projetos seguem em elaboração, a duplicação não foi licitada e a pista continua simples.
“A duplicação da BR-235/SE vai melhorar a mobilidade, a segurança e a qualidade de vida das pessoas que vivem e trabalham às margens da rodovia.” — Governador Fábio Mitidieri, abril de 2024.
Essa é a crônica de uma obra que sempre está para começar. A BR-235 figura em planos de governo há décadas, é lembrada em discursos eleitorais e anunciada em cerimoniais com palanque e microfone. Mas entre o palanque e a obra, há um abismo — e nesse abismo, pessoas continuam morrendo.
Painel de Dados — BR-235/SE em Números
Levantamento com base em fontes oficiais e veículos de imprensa (2025–2026):
| Indicador | Dado / Fonte |
| Acidentes (1º sem. 2025) | 126 ocorrências registradas pela PRF na BR-235/SE |
| Acidente grave — nov. 2025 | 3 mortes em Itabaiana (SE TV, nov. 2025) |
| Acidente grave — dez. 2025 | 1 morte e 11 feridos em Areia Branca (G1, dez. 2025) |
| Acidente grave — jun. 2026 | 4 mortes e 3 feridos no Povoado Cafuz, Areia Branca (Infonet, jun. 2026) |
| Contrato de manutenção ativo | R$ 47,1 mi / 30 meses — tapa-buracos em km 56 (DNIT, mai. 2026) |
| Duplicação Aracaju–Itabaiana | Projetos de engenharia em elaboração; obras não iniciadas (DNIT, mar. 2025) |
| Extensão do trecho em estudo | 114,8 km — Aracaju até divisa com a Bahia |
O que a sociedade sergipana pode exigir
Não se trata de questão partidária. Governos de diferentes matizes repetiram o mesmo roteiro: anúncio, aplauso e inércia. O que se exige agora é transparência e cronograma. Quando o projeto de engenharia será concluído? Qual a data prevista para a licitação das obras físicas? Quais os mecanismos de fiscalização? A população do Agreste e do Sertão sergipano merece respostas concretas — não notas de imprensa otimistas.
Enquanto essas respostas não chegam, a BR-235 segue cobrando seu preço. Cada acidente fatal é um fracasso coletivo: do planejamento que não saiu do papel, da fiscalização que aceita remendos como solução e da política que trata infraestrutura como moeda de campanha. Sergipe precisa de uma rodovia duplicada, sinalizada e segura. Precisa disso agora.
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