O trabalho emergencial da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para produzir a vacina Oxford/AstraZeneca durante a pandemia de covid-19 resultou em 190 milhões de doses entregues ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) e deixou infraestrutura que seguirá beneficiando o Sistema Único de Saúde (SUS). A avaliação é de Rosane Cuber, diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz).
Mobilização imediata
Assim que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia, em março de 2020, Bio-Manguinhos iniciou a produção de testes diagnósticos para o novo coronavírus. Paralelamente, uma equipe passou a mapear candidatas a vacina que pudessem ser trazidas ao país por meio de transferência de tecnologia.
As tratativas com a Universidade de Oxford e com a farmacêutica AstraZeneca começaram em agosto de 2020. O instituto direcionou todos os seus setores ao projeto, suspendeu atividades paralelas e contou com doações da sociedade civil para adquirir equipamentos e insumos.
Da importação ao insumo nacional
A primeira remessa da vacina, com 2 milhões de doses prontas, chegou ao Brasil em janeiro de 2021, poucos dias após a autorização de uso emergencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em fevereiro do mesmo ano, apenas o ingrediente farmacêutico ativo (IFA) continuou a ser importado; o envase, a rotulagem e o controle de qualidade passaram a ser feitos na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro.
Com a adequação das áreas produtivas, Bio-Manguinhos iniciou a fabricação nacional do IFA em fevereiro de 2022, tornando a vacina 100% brasileira. Todo o processo foi acompanhado pela Anvisa.
Impacto e continuidade
O imunizante produzido pela Fiocruz foi o mais aplicado no país em 2021. Estudos de especialistas indicam que, apenas naquele ano, a vacinação poupou cerca de 300 mil vidas no Brasil. A produção foi encerrada após a aquisição de vacinas mais novas pelo Ministério da Saúde, mas a estrutura montada permanece.
Novas frentes de pesquisa
Entre os projetos que utilizam a capacidade instalada está uma terapia avançada para tratar atrofia muscular espinhal (AME), doença rara cujo tratamento pode custar R$ 7 milhões. A técnica emprega vetor viral — mesma plataforma usada na vacina Oxford/AstraZeneca — e já recebeu autorização da Anvisa para estudos clínicos em 2024.
Também este ano começam testes em humanos de uma vacina contra a covid-19 baseada em RNA mensageiro (mRNA). A plataforma vinha sendo estudada por Bio-Manguinhos para tratamento oncológico, e a experiência da pandemia ampliou seu uso para imunizantes.
Reconhecimento internacional
O desempenho durante a crise sanitária levou Bio-Manguinhos a ser escolhido como um dos seis centros globais de produção da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi). O instituto também foi designado pela Organização Mundial da Saúde como hub regional para desenvolvimento de produtos em mRNA, com foco na América Latina.
Segundo Rosane Cuber, o histórico de não buscar lucro e sim atender às necessidades de saúde pública foi determinante para o reconhecimento e para a consolidação da soberania nacional na produção de imunobiológicos.
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