Sem receber salários há meses, equipes no leste da RD Congo ameaçam parar o atendimento a doentes com ebola. Enfermeiros dizem que a falta de pagamento põe em risco sua segurança e o cuidado aos pacientes.
Todas as manhãs, Micheline Kayimpa veste várias camadas de equipamentos de proteção antes de entrar em uma ala de isolamento para pacientes com ebola no leste da República Democrática do Congo. Ela sabe que um único erro pode custar sua vida.
No Centro de Tratamento de Ebola Elikya, em Bunia, a enfermeira passa os dias cuidando de pacientes infectados pelo ebola, um dos vírus mais letais do mundo. Ela administra medicamentos e presta assistência a pessoas debilitadas demais para se alimentarem sozinhas.
Como o ebola é transmitido por meio de fluidos corporais, até mesmo os cuidados de rotina expõem os profissionais de saúde a um risco constante, desde o atendimento aos pacientes até a limpeza de áreas contaminadas.
“Tenho muito medo pela minha segurança. Às vezes, um pequeno detalhe que deixamos passar pode ser fatal,”
disse Kayimpa. Nesse momento, os profissionais de saúde enfrentam mais do que apenas o vírus. Após meses tratando pacientes, Kayimpa afirma que ainda não recebeu um único salário do governo. Mãe de quatro filhos, ela está entre dezenas de profissionais que protestaram contra os atrasos nos pagamentos e ameaçaram interromper o trabalho.
O momento não poderia ser pior. Pelo menos 80 pessoas morreram em um novo surto de ebola na RD Congo, com o número de casos chegando a quase 600. A Organização Mundial da Saúde classifica o surto atual como o maior já registrado no país. Desde que o vírus surgiu, em meados de maio, ao menos 3.874 pessoas foram infectadas e 1.751 morreram, segundo dados do Ministério da Saúde congolês.
O surto foi identificado simultaneamente na RD Congo e na vizinha Uganda. Enquanto Uganda já declarou o fim da transmissão do ebola em seu território, os casos continuam aumentando no leste do Congo. Em pouco mais de dois meses, o atual surto já superou a última grande epidemia de ebola, que durou quase dois anos, entre agosto de 2018 e junho de 2020.
Bunia, onde Kayimpa trabalha, é a capital da província de Ituri, no nordeste do país, e o epicentro do surto, concentrando mais de 90% dos casos confirmados. A resposta à epidemia já enfrenta dificuldades para acompanhar o avanço da doença, mesmo antes da ameaça de paralisação dos profissionais de saúde.
O surto atual é causado pela variante Bundibugyo, que não possui vacinas comprovadamente eficazes. Além disso, os conflitos armados na região dificultam o acesso das equipes de saúde às comunidades afetadas. A desconfiança e a resistência às restrições de rituais tradicionais de sepultamento têm alimentado a hostilidade contra os profissionais de saúde.
A violência contra as equipes de saúde já foi evidente, com ataques registrados em centros de tratamento. A ONU informou que pelo menos uma dúzia de unidades de saúde foi atacada, principalmente devido ao medo e à desinformação. Apesar das dificuldades, as organizações humanitárias, como a Médicos Sem Fronteiras, permanecem comprometidas com a resposta ao surto.
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