A possível retomada da taxação em compras internacionais reacende polêmicas sobre uso eleitoral de políticas públicas. Entenda o que está em jogo para o consumidor.
Se existe algo que não pode ser aceito é a utilização de políticas públicas como um instrumento de conveniência política, ao invés de um compromisso sério com a sociedade.
A trajetória da chamada “taxa das blusinhas” revela um problema que vai além da simples cobrança de impostos sobre compras internacionais. Ela expõe uma prática comum na política brasileira: a transformação de temas complexos em narrativas simplificadas, apresentadas ao cidadão como soluções definitivas, quando, na realidade, muitas vezes representam apenas movimentos temporários em um contexto bem mais amplo.
Inicialmente, a justificativa para tributar compras internacionais de pequeno valor era proteger a indústria nacional, garantir isonomia concorrencial e preservar empregos. O argumento era que as empresas brasileiras enfrentavam uma carga tributária elevada, enquanto grandes empresas estrangeiras vendiam produtos ao Brasil com vantagens competitivas. Essa justificativa era válida e defensável do ponto de vista econômico.
Com o passar do tempo, a narrativa se alterou. A mesma cobrança começou a ser vista como um peso excessivo para o consumidor. O governo, então, decidiu recuar, anunciou a revogação do imposto e transmitiu à população uma sensação de alívio. Assim, muitos brasileiros passaram a acreditar que poderiam adquirir produtos mais baratos no exterior, sem a incidência daquela tributação adicional.
No entanto, a questão central nunca foi o imposto em si, mas sim a forma como essas decisões são comunicadas e interpretadas pela sociedade. Quando um tributo é criado, removido ou substituído em períodos tão curtos, o que fica para o cidadão é uma sensação de improviso. A impressão que se tem é que as regras mudam constantemente, sem estabilidade e sem um compromisso de longo prazo.
A insegurança se agrava quando se percebe que aquilo que foi apresentado como uma solução definitiva pode, na prática, ser apenas uma pausa temporária. O consumidor não acompanha os detalhes técnicos das mudanças tributárias, nem as discussões sobre CBS, IVA, reforma tributária ou mecanismos de compensação fiscal. O que ele entende é algo muito mais simples: ontem pagava, hoje não paga, amanhã talvez pague novamente.
A coincidência entre a revogação da taxa e o ambiente eleitoral também merece ser analisada. Em política, o tempo das decisões raramente é irrelevante. Reduzir ou eliminar um imposto que impacta milhões de consumidores gera um efeito imediato na percepção popular e produz dividendos políticos evidentes. O problema surge quando essa desoneração é apresentada como uma solução definitiva, enquanto o próprio sistema já indica uma nova tributação em 2027.
Na prática, o consumidor pode estar diante de uma ilusão temporária: ele deixa de pagar hoje para voltar a pagar amanhã. A diferença é que o benefício é percebido imediatamente, enquanto a futura cobrança está oculta nos detalhes técnicos da reforma tributária. Essa lógica alimenta a desconfiança da população e reforça a sensação de que, muitas vezes, as decisões são tomadas pensando no próximo ciclo eleitoral, e não na estabilidade econômica do país.
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