Um levantamento inédito baseado no Saeb 2023 aponta que cerca de 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio afirmam não perceber debates sobre desigualdades raciais em sala de aula. A pesquisa, divulgada em 26 de maio de 2026, reuniu dados a partir de uma parceria entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e os institutos Alana e Geledés.
O estudo, intitulado “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, indica que, mesmo com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008 — que determinam o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas —, a educação antirracista ainda não é uma experiência claramente reconhecida pelos alunos.
Segundo os pesquisadores, há um contraste entre as respostas de docentes e estudantes: 81,6% dos professores do 9º ano e 71,6% dos docentes do 3º ano do ensino médio disseram abordar desigualdades raciais “muitas vezes” ou “sempre”. Entre os alunos, porém, menos da metade percebe essa frequência: 46,6% no ensino fundamental e 46,8% no ensino médio afirmaram que a maioria ou todos os seus professores tratam do tema.
Variações por rede e raça
A percepção de ausência do tema é mais pronunciada na rede privada, onde 60,8% dos estudantes do ensino fundamental e 60,8% dos do ensino médio disseram não reconhecer o debate, enquanto na rede pública os percentuais foram de 51,4% e 51,9%, respectivamente.
O recorte por autodeclaração racial também mostrou diferenças: alunos brancos registraram maiores índices de não reconhecimento do debate (53,5% no ensino fundamental e 55,4% no ensino médio) em comparação a estudantes pretos (50% e 51,2%), pardos (50,5% e 50,2%) e indígenas (49,5% e 46,8%).
Percepções de especialistas e recomendações
Pesquisadores ouvidos no estudo destacaram a aplicação desigual das leis. A socióloga Flávia Rios, da USP e pesquisadora do Cebrap, afirmou que as políticas foram implementadas de forma irregular ao longo das últimas duas décadas, com iniciativas pontuais de secretarias e do Ministério da Educação, mas sem universalização ou consistência transdisciplinar.
Eliane Firmino, também do Cebrap, observou que os dados expõem limitações na efetividade prática da legislação e ressaltou que escolas privadas não são obrigadas a participar do Saeb, o que pode influenciar a representatividade dos resultados dessas instituições.

Entre as recomendações do estudo estão o monitoramento contínuo da implementação das leis, fortalecimento da formação continuada de professores e equipes gestoras, ampliação da diversidade racial no corpo docente, uso intencional de materiais pedagógicos e a criação de espaços de diálogo entre docentes e especialistas no tema.
Representantes de organizações parceiras apontaram a necessidade de fiscalização, materiais didáticos adequados e maior envolvimento de professores não negros no tema. O levantamento também destacou que o diálogo entre escola e famílias é importante para combater o racismo, e que ações precisam ser coordenadas para consolidar a educação para relações étnico-raciais.
Casos ilustrativos citados pelos pesquisadores incluem relatos de trabalhos escolares que tratam da contribuição negra para a formação do país como uma novidade para famílias, e observações sobre abordagens episódicas do tema, em datas comemorativas como o Dia da Consciência Negra.
Com informações de Agência Brasil
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