Washington assinou memorando com Teerã sem dar acesso ao documento a Israel, aliado histórico. Analistas avaliam que o acordo redefine o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
Israel, que atuou em conjunto com os Estados Unidos nos ataques contra o Irã, não deve assinar o memorando de entendimento entre os dois países. Uma fonte israelense informou que o país solicitou acesso ao documento antes de sua assinatura, mas o pedido foi negado pelos americanos.
O analista internacional Lourival Sant’Anna e o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Carlos Frederico Coelho, discutiram os desdobramentos do acordo e suas implicações estratégicas para a região. As autoridades em Teerã se sentem empoderadas pelos resultados do conflito até o momento, segundo agências de inteligência dos EUA. O Irã está considerando bloquear novamente o Estreito de Ormuz como estratégia de pressão.
“Para o Irã, o Estreito de Ormuz se mostrou uma arma mais poderosa do que qualquer bomba nuclear,”
afirmou uma fonte com acesso a relatórios de inteligência. Apesar da redução na capacidade militar do Irã no estreito devido a ataques anteriores, informações indicam que o país ainda mantém cerca de dois terços dos lançadores de mísseis intactos e conserva metade de sua capacidade de estocagem de drones. Além disso, o Irã retomou a produção de drones durante o cessar-fogo, com estimativas apontando que poderia restaurar totalmente sua capacidade de ataque em cerca de seis meses.
Para Coelho, o conflito resultou em um redesenho estratégico que, de forma inesperada, beneficia o Irã. Ele destacou que o memorando que será assinado é relativamente genérico e pode incluir cobranças por serviços marítimos e a devolução de fundos ao Irã. Segundo ele, se as especulações se concretizarem, isso poderá ser uma aventura desastrosa por parte do governo americano.
“O Irã descobriu que o Estreito de Ormuz é mais valioso do que uma arma nuclear e, a partir de agora, Teerã nunca vai negociar a partir de uma posição de fraqueza,”
afirmou Coelho. Sant’Anna acrescentou que o conflito teve origem em um erro colossal de análise de inteligência, ressaltando que a decapitação do regime iraniano não levaria à sua queda. Ele observou que Israel perde com o desfecho do conflito tudo o que havia conquistado desde outubro de 2023, enquanto o Irã passa a ocupar uma posição de maior prestígio na região.
As opções de Israel agora dependem da pressão que os Estados Unidos exercem. Recentemente, houve ataques no sul do Líbano, e o Irã alegou ter registrado 84 violações do cessar-fogo nos dias que antecedem a assinatura do memorando. O Irã também advertiu que o acordo pode não avançar caso as operações israelenses no Líbano continuem. Coelho avaliou que o Irã está em uma posição de máxima capacidade de barganha neste momento, podendo exigir um controle mais efetivo dos EUA sobre as ações israelenses.
Na reunião do G7, os europeus demonstraram disposição para colaborar com a reabertura do Estreito de Ormuz, reconhecendo a pressão inflacionária sobre os preços de energia no continente devido aos conflitos no Irã e na Ucrânia. No entanto, Coelho destacou que a reabertura efetiva do estreito depende de mais do que um comunicado oficial, pois a segurança deve ser garantida para que o petróleo flua novamente.
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