Pesquisadores do INPO dizem que o fenômeno previsto para 2026, somado ao aquecimento, pode aumentar chuvas extremas, ondas de calor e secas prolongadas. Áreas costeiras, com milhões de moradores, são as mais vulneráveis.
O risco de formação de um super El Niño em 2026 levou pesquisadores brasileiros a reforçarem o alerta sobre a necessidade de preparar o país para uma nova rodada de eventos climáticos extremos. Especialistas ligados ao Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) destacam que a combinação entre esse fenômeno natural e o aquecimento global pode intensificar chuvas torrenciais, ondas de calor, estiagens prolongadas e processos de erosão costeira, afetando diversas regiões do Brasil.
O maior desafio, segundo os cientistas, está nas áreas costeiras, onde milhões de brasileiros residem em regiões propensas a alagamentos, deslizamentos de terra e ressacas. Essas localidades, que já enfrentam uma elevada concentração populacional, perderam parte de suas defesas naturais nas últimas décadas, tornando-se mais vulneráveis à elevação do nível do mar e tempestades mais intensas.
“O El Niño não representa apenas uma mudança na temperatura do Oceano Pacífico. Em um planeta já aquecido, ele amplia a frequência, a intensidade e a duração de ondas de calor, secas e chuvas extremas”, afirma um especialista.
O alerta surge após um relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que indicou que 2025 foi um ano marcado por uma sucessão de eventos climáticos severos em praticamente todas as regiões do país. Além do aumento da frequência dos eventos extremos, os pesquisadores chamam a atenção para a redução dos estoques naturais de sedimentos, que agravam os riscos no litoral brasileiro.
Pesquisadores indicam que praias, dunas e outros ambientes costeiros dependem da reposição contínua de areia e sedimentos para manter sua estabilidade. Porém, grande parte do litoral brasileiro teve esse equilíbrio comprometido, tornando-se mais suscetível à erosão e ao avanço do mar. Essa situação é preocupante especialmente em áreas urbanizadas, onde a ocupação intensa diminuiu a capacidade natural de absorver os impactos de tempestades e ressacas.
No Norte do Brasil, a combinação de extensos manguezais, grandes variações de maré e relevo plano também contribui para a vulnerabilidade. Pequenas elevações do nível do mar podem provocar o avanço da água por longas distâncias, alterando ecossistemas e afetando comunidades inteiras.
Os impactos do El Niño não devem ser sentidos de forma uniforme em todo o país. Episódios anteriores do fenômeno provocaram aumento das chuvas no Sul e em parte do Sudeste, resultando em enchentes, deslizamentos e alagamentos. Por outro lado, na Amazônia, a redução das chuvas costuma resultar em secas severas, diminuição do nível dos rios, dificuldades no transporte fluvial, problemas no abastecimento de água e isolamento de comunidades ribeirinhas.
Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam cerca de 80% de probabilidade de desenvolvimento do El Niño entre julho e agosto de 2026, com chances superiores a 90% de permanência até novembro. Para mitigar os impactos, pesquisadores defendem uma estratégia que inclua tanto obras de infraestrutura quanto a recuperação de ecossistemas naturais.
Entre as prioridades estão o fortalecimento dos sistemas de monitoramento meteorológico e oceanográfico, a atualização dos planos de contingência da Defesa Civil, o mapeamento das áreas de maior risco e investimentos em drenagem urbana. Soluções baseadas na natureza, como a recuperação de manguezais e matas ciliares, também são enfatizadas como formas de conter enchentes e estabilizar o solo.
Na Amazônia, uma alternativa sugerida para enfrentar períodos de estiagem é a ampliação do uso de cisternas para armazenamento de água da chuva, um modelo já adotado em regiões do semiárido brasileiro. Pesquisadores ressaltam a importância de melhorar o monitoramento do litoral brasileiro, uma vez que o país ainda apresenta lacunas na coleta contínua de informações sobre nível do mar, ondas, marés e transporte de sedimentos. Esses dados são essenciais para prever impactos e orientar políticas públicas.
“A integração entre ciência, planejamento territorial, governança e adaptação climática será determinante para aumentar a capacidade de resposta dos territórios diante de eventos extremos que tendem a se tornar mais frequentes e intensos”, afirma um especialista.
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