Pete Hegseth anunciou testes anuais para militares a partir dos 30 anos, sem definir o que é 'baixo'. Especialistas alertam que limiares mudam entre laboratórios e que prescrições de testosterona cresceram.
O nível considerado muito baixo de testosterona ainda é um tema indefinido, especialmente após o anúncio do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em julho de 2026, que determinou que militares com 30 anos ou mais fariam testes anuais dos níveis do hormônio. O Pentágono não especificou qual seria o nível de testosterona classificado como “baixo”, o que levanta questões sobre a interpretação dos resultados, que pode variar conforme o laboratório e as diretrizes médicas.
Esse anúncio acontece em um contexto onde as prescrições de testosterona nos EUA aumentaram significativamente, alcançando quase 12 milhões em 2025, um crescimento de 154% desde 2020, com a maior parte desse aumento entre homens na faixa dos 30 e 40 anos. Clínicas online têm sido responsáveis por essa elevação, vendendo testosterona como uma forma de melhorar a qualidade de vida.
A testosterona é frequentemente associada à masculinidade, mas é importante ressaltar que pessoas de todos os gêneros produzem o hormônio em diferentes quantidades. Nos meninos e homens cisgêneros, os níveis aumentam durante a puberdade, contribuindo para o desenvolvimento de características físicas, mas diminuem com a idade, especialmente a partir dos 30 anos. Quando os níveis caem a ponto de causar sintomas como fadiga ou perda de massa muscular, a terapia de reposição sob supervisão médica pode ser uma opção.
Os endocrinologistas consideram saudáveis os níveis de testosterona entre aproximadamente 300 a 1.000 nanogramas por decilitro de sangue. Estar dentro dessa faixa não necessariamente reflete características “masculinas”, como força ou agressividade. Os níveis de testosterona não são fixos e variam ao longo do dia e das estações, o que torna a triagem em homens saudáveis uma prática questionável.
Os riscos associados à terapia com testosterona são significativos, pois a suplementação pode inibir a produção natural do hormônio, levando a efeitos colaterais indesejados, como redução do tamanho dos testículos e acne. Além disso, a ideia de que níveis elevados de testosterona são sinônimo de masculinidade ignora esses riscos.
Pesquisas ao longo das décadas desmistificam a noção de que mais testosterona resulta em maior agressividade ou domínio. Uma análise de 2001 com dados de 45 estudos não encontrou uma correlação forte entre os níveis do hormônio e a agressividade. Estudos mais recentes mostram que o comportamento pode influenciar os níveis de testosterona, e que a agressividade é frequentemente desencadeada por pressões sociais e não pela química do corpo.
Estudos realizados com adolescentes revelaram que aqueles que reagiam agressivamente a ameaças à sua masculinidade eram os que mais sentiam pressão externa para se encaixar nos padrões masculinos. Essa pressão é frequentemente reforçada por crenças familiares e sociais que recomendam que os homens exerçam controle sobre os outros.
Contrariando a narrativa de que a masculinidade é uma questão de química, a pesquisa sugere que o ambiente social desempenha um papel crucial na formação da identidade masculina. Surpreendentemente, o ambiente militar, com sua rotina exaustiva, pode, na verdade, reduzir os níveis de testosterona dos homens, destacando a complexidade da relação entre hormônios e comportamento.
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