Condição de origem genética e hormonal provoca redução gradual da densidade capilar e exige diagnóstico precoce para evitar avanço do quadro
Perceber que o rabo de cavalo está menos volumoso, notar o couro cabeludo mais visível ou observar alterações na linha frontal do cabelo são sinais que frequentemente despertam preocupação sobre possíveis mudanças na saúde capilar. Em muitos casos, a situação não aparece como uma queda intensa e repentina de fios, mas como modificações graduais na espessura e na qualidade do cabelo.
Esse processo costuma se desenvolver de forma lenta e contínua. Com o tempo, os fios passam a nascer mais finos, mais curtos e com menor pigmentação, o que reduz progressivamente o volume do cabelo. À medida que a condição evolui, o couro cabeludo tende a ficar mais aparente e a densidade capilar diminui, principalmente em determinadas áreas da cabeça.
De acordo com a dermatologista e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Thâmara Morita, quando esse afinamento progressivo está ligado a fatores hormonais e hereditários, ele pode indicar alopecia androgenética, considerada a forma mais comum de calvície. “A condição ocorre quando folículos capilares geneticamente sensíveis passam a reagir de maneira diferente à ação dos hormônios andrógenos. Com isso, os fios tornam-se progressivamente mais finos e curtos até que o folículo perde a capacidade de produzir cabelos com a mesma estrutura de antes”, explica.
Fatores hormonais
A alopecia androgenética tem origem principalmente na interação entre predisposição genética e influência hormonal. Entre os principais elementos envolvidos está a di-hidrotestosterona (DHT), substância derivada da testosterona que exerce impacto direto sobre os folículos pilosos.
Segundo Thâmara Morita, a DHT é produzida quando a enzima 5-alfa-redutase transforma a testosterona em uma versão hormonal mais potente. Em pessoas geneticamente predispostas, essa substância atua nos receptores do folículo capilar e modifica o ciclo de crescimento dos fios. “A di-hidrotestosterona encurta a fase de crescimento do cabelo e faz com que o folículo entre mais rapidamente na fase de repouso. Com o tempo, esse ciclo reduzido provoca a atrofia da raiz e compromete a produção de fios mais espessos”, afirma a dermatologista.
Além da influência hormonal, a herança genética exerce papel importante no desenvolvimento da condição. A especialista explica que o surgimento da alopecia não depende de um único gene e pode ser transmitido tanto pela linhagem materna quanto pela paterna. “Ter casos de calvície na família aumenta significativamente a chance de desenvolver o quadro, mas a ausência desse histórico não garante proteção total. A genética da alopecia é complexa e envolve diferentes genes que podem se manifestar de formas variadas”, afirma.
Como identificar
Embora a alopecia androgenética possa atingir homens e mulheres, a forma como ela se manifesta costuma ser diferente entre os sexos. Nos homens, o quadro geralmente começa com o recuo da linha frontal e o afinamento dos fios na região do topo da cabeça, áreas tradicionalmente associadas ao início da calvície masculina. Nas mulheres, por sua vez, o padrão tende a ser mais difuso e, em geral, preserva a linha frontal do cabelo. O sinal mais comum é o alargamento da risca central, acompanhado de perda gradual de volume capilar.
Segundo Thâmara Morita, muitas pacientes demoram a buscar atendimento porque as mudanças acontecem de forma discreta e progressiva. “Entre as mulheres, o primeiro indício costuma ser a percepção de perda de volume. Muitas relatam que o rabo de cavalo fica mais fino ou que o couro cabeludo começa a aparecer mais na divisão dos fios”, explica.
Pesquisas indicam que a condição é mais frequente e costuma se manifestar de forma mais intensa entre os homens. Estima-se que entre 50% e 80% da população masculina apresentará algum grau de alopecia androgenética ao longo da vida, enquanto entre as mulheres esse índice varia entre 20% e 40%.
“Essa diferença está diretamente relacionada ao ambiente hormonal. Os homens possuem níveis mais elevados de testosterona circulante, que é o hormônio precursor da di-hidrotestosterona. Isso ajuda a explicar por que a calvície tende a surgir mais cedo e de forma mais acentuada nesse grupo”, afirma.
Tratamento
Embora a alopecia androgenética não tenha cura definitiva, existem diferentes estratégias terapêuticas capazes de controlar a evolução da condição e preservar a densidade capilar. O tratamento geralmente envolve a combinação de medicamentos, terapias de estímulo folicular e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos.
Entre as alternativas mais utilizadas está o minoxidil, medicamento que estimula a circulação sanguínea no couro cabeludo e prolonga a fase de crescimento dos fios. O produto pode ser aplicado diretamente nas áreas afetadas ou administrado por via oral, conforme a avaliação médica.
Outra abordagem envolve o uso de medicamentos capazes de reduzir a ação hormonal sobre os folículos, como a finasterida e a dutasterida. Esses fármacos atuam bloqueando a enzima responsável pela formação da di-hidrotestosterona. “Nos homens, esses medicamentos costumam apresentar resultados bastante consistentes porque interferem diretamente no mecanismo hormonal que provoca a miniaturização dos folículos”, explica Thâmara Morita.
Para as mulheres, o tratamento costuma seguir uma abordagem diferente, especialmente por questões relacionadas à segurança durante a idade fértil. “Alguns bloqueadores hormonais exigem cuidados específicos em pacientes do sexo feminino. Por isso, muitas vezes utilizamos minoxidil, medicamentos antiandrógenos como a espironolactona e terapias que estimulam a atividade do folículo”, afirma.
Procedimentos como microinfusão de medicamentos no couro cabeludo, terapias com laser de baixa intensidade e transplante capilar também podem ser indicados, principalmente em quadros mais avançados ou quando há perda significativa de densidade capilar.
Novas pesquisas
Nos últimos anos, o tratamento da alopecia androgenética tem avançado de forma significativa, com estudos voltados não apenas para retardar a queda dos fios, mas também para estimular a regeneração capilar.
Uma das linhas de investigação mais promissoras envolve a clascoterona, considerada um dos primeiros bloqueadores tópicos de receptores andrógenos. Diferentemente de alguns medicamentos orais, essa substância atua diretamente no couro cabeludo. “Essa estratégia permite bloquear a ação hormonal diretamente no folículo, com menor impacto nos níveis hormonais do organismo como um todo”, explica Thâmara Morita.
Outra frente de pesquisa envolve o uso de exossomos, estruturas microscópicas que transportam proteínas e fatores de crescimento capazes de estimular a atividade celular dos folículos capilares. Também existem estudos focados na reativação de células-tronco presentes no couro cabeludo, que permanecem inativas em folículos afetados pela alopecia. A proposta dessas terapias é “reativar” o metabolismo capilar e estimular o crescimento de novos fios.
Para a dermatologista, apesar dos avanços tecnológicos, a orientação médica continua sendo essencial para evitar o agravamento da condição. “A alopecia androgenética tem impacto importante na autoestima e na qualidade de vida. Por isso, o diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado são fundamentais para preservar a saúde capilar e orientar o paciente sobre as possibilidades de tratamento”, conclui.
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