Pesquisadores da UFRJ detectaram sertralina no cérebro de tubarões-martelo capturados no Rio de Janeiro. O dado preocupa especialistas e acende alerta sobre o impacto dos medicamentos nos oceanos.
Um estudo realizado pelo projeto Eco Shark, liderado pela Dra. Mariana Bata Alonso da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), revelou a presença do antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo no Rio de Janeiro. Desde 2018, os pesquisadores têm recolhido carcaças de tubarões que são capturados acidentalmente em redes de pesca.
A Dra. Mariana, professora doutora do Instituto de Biofísica, explicou que o objetivo do novo estudo era analisar os efeitos de antidepressivos e ansiolíticos, especialmente após um aumento de 25% no consumo dessas substâncias em decorrência da pandemia de Covid-19. A equipe passou a investigar “contaminantes emergentes”, como medicamentos, além dos resíduos industriais e pesticidas que já monitoravam.
Diferentemente de outros poluentes que se acumulam no fígado ou nos músculos, a sertralina apresentou um comportamento seletivo. A equipe analisou cinco órgãos: cérebro, fígado, músculo (carne), brânquias e as ampolas de Lorenzini. “Encontramos os contaminantes em todos os órgãos analisados. No entanto, o antidepressivo apresentou uma concentração maior no cérebro. Isso reforça que, assim como nos seres humanos, trata-se de uma substância que atua diretamente em questões psíquicas”, afirmou a Dra. Mariana.
A explicação científica para esse fenômeno é que a sertralina é lipofílica, ou seja, tem afinidade por gordura. O cérebro, rico em lipídios devido à bainha de mielina, acaba acumulando o medicamento preferencialmente. A Dra. Mariana destaca que a origem dessa presença de antidepressivos no cérebro dos tubarões está no consumo humano, mas a falha principal reside no sistema de saneamento. Aproximadamente 1% da sertralina ingerida por humanos é excretada de forma inalterada.
Ela também explica que as estações de tratamento de esgoto atuais não conseguem eliminar medicamentos. Esses compostos não permanecem na água, mas vão para o sedimento, onde são ingeridos por camarões, que por sua vez são consumidos por peixes maiores, até chegarem à dieta dos tubarões.
“O mar sem tubarões, aí sim que a gente tem que se preocupar. Porque vai ser um mar em total desequilíbrio. E outra coisa é que ele está servindo como uma bandeira, uma sentinela, mostrando para a gente o que pode vir a acontecer conosco, com o planeta, com a nossa saúde”, afirmou a bióloga.
A Dra. Mariana faz um apelo para que a população evite consumir carne de cação, lembrando que “cação é tubarão” e que espécies como o tubarão-martelo já estão criticamente ameaçadas de extinção no Brasil. Ela também alerta que medicamentos nunca devem ser descartados no vaso sanitário, pois eles acabam indo diretamente para o mar.
O Projeto Eco Shark visa a conservação de ecossistemas marinhos, com foco especial nos tubarões. Esses animais, muitas vezes vistos de forma negativa, são reguladores naturais dos mares, controlando populações de outras espécies e ajudando a manter a saúde dos recifes de corais. Sem tubarões, os ecossistemas marinhos podem sofrer um desequilíbrio significativo, levando a consequências severas para a biodiversidade.
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