A Polícia Federal (PF) revelou que o Banco Digimais, alvo de uma operação nesta terça-feira (23), implementou um esquema de superavaliação de ativos com a intenção de disfarçar sua real condição de insolvência. Essa prática teria enganado tanto investidores de varejo quanto o órgão regulador e o sistema de garantias de crédito.
De acordo com a PF, o banco adotou estratégias financeiras arriscadas, similares às do extinto Banco Master, ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As investigações indicam que o colapso do Banco Master expôs uma ligação significativa de aproximadamente R$ 600 milhões do Banco Digimais a carteiras de crédito da instituição liquidada.
A partir de 2023 e 2024, o banco começou a emitir Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas superiores a 110% do CDI. Esta situação, somada à liquidação extrajudicial do BANCO MASTER em novembro de 2025, levantou questionamentos sobre a qualidade e a regularidade dos ativos do Banco Digimais. A PF destacou que a exposição da instituição a carteiras de crédito do banco liquidado deveria ser investigada.
Especialistas consultados afirmaram que as manobras do Banco Digimais buscavam contornar regras do mercado financeiro, como o Índice de Basileia, que é fundamental para avaliar a solidez de uma instituição financeira. Ricardo Hammoud, economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explicou que o banco tentava inflar artificialmente o valor de seus ativos, o que criava uma falsa impressão de solidez financeira.
A PF também indicou que a Corretora ID desempenhou um papel central na investigação, uma vez que foi responsável pela administração de fundos do Banco Digimais. A superavaliação de ativos nos fundos geridos pela corretora é vista como uma tentativa de aumentar artificialmente o patrimônio do banco para facilitar a emissão de títulos de captação.
Hammoud esclareceu que a corretora era necessária para o esquema, pois o próprio Banco Digimais não poderia aumentar o valor de seus ativos diretamente. Ele detalhou que, ao sobrevalorizar os ativos administrados, o banco aparentava ter um patrimônio maior, o que não refletia a realidade.
O economista também alertou sobre o risco associado aos CDBs de alta rentabilidade, que atraem investidores devido ao retorno elevado, mas que também envolvem um risco significativo. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre operações até R$ 250 mil em caso de falência da instituição, mas isso pode incentivar investimentos em bancos com práticas arriscadas.
Os envolvidos poderão enfrentar acusações de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios contábeis e realização de operações de crédito proibidas, conforme a Lei nº 7.492/1986, que estabelece os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
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