A medida de salvaguarda adotada pela China para proteger sua produção local de carne bovina começa a mudar a dinâmica do setor brasileiro. O preenchimento da cota de exportação já reduziu o ritmo dos frigoríficos, pressionou a arroba do boi gordo e acendeu o alerta entre exportadores e pecuaristas.
A medida de salvaguarda comercial entrou em vigor em 1º de janeiro deste ano, após ser anunciada pelo governo chinês em dezembro de 2025, e foi adotada com a justificativa de proteger os pecuaristas e a indústria local diante do avanço das importações.
O mecanismo estabelece uma quantidade máxima de carne que pode entrar na China pagando apenas a tarifa regular. A partir desse limite, uma sobretaxa é aplicada, reduzindo significativamente a competitividade do produto estrangeiro. Para o Brasil, a cota foi fixada em 1,106 milhão de toneladas. Até esse volume, a tarifa de importação é de 12%. Acima disso, uma sobretaxa adicional de 55% eleva a tributação total para 67%.
Dados da ComexStat mostram que, em 2025, o Brasil embarcou cerca de 1,68 milhão de toneladas de carne bovina ao mercado chinês, quantidade aproximadamente 35% superior ao limite definido pela nova regra. Maurício de Palma Nogueira, diretor da Athenagro, afirma que a decisão chinesa representa uma tentativa de fortalecer a cadeia pecuária doméstica. “O que foi falado é que havia necessidade de proteger a indústria local. Eles estabeleceram essas medidas de salvaguarda e aplicaram cotas para todos os países”, explica.
Ele acrescenta que o Brasil recebeu a maior cota justamente por ser o principal fornecedor da China. “Como o Brasil é o maior exportador para eles, ficou também com a maior cota. O que passar desse limite recebe uma tributação total de aproximadamente 67%, o que praticamente inviabiliza nossa competitividade”, diz Nogueira.
O pesquisador do FGV Agro, Felippe Serigatti, avalia que a tendência é de uma forte desaceleração das exportações brasileiras para a China no segundo semestre. No entanto, alguns embarques ainda devem ocorrer. “Contratos já firmados precisam ser cumpridos e alguns cortes de maior valor agregado podem continuar competitivos, mesmo com a tarifa adicional. Mas esses casos devem ser exceção”, afirma.
Para Serigatti, a nova política deve alterar o comportamento do mercado chinês ao longo do ano. A expectativa é que as compras fiquem mais concentradas no primeiro semestre, quando ainda há espaço dentro da cota, enquanto os embarques perdem ritmo após o limite ser atingido.
Apesar da criação de novas tarifas, especialistas acreditam que a China não deve reduzir de forma significativa as compras de carne bovina brasileira, já que o país asiático ainda depende das importações para atender à demanda interna. Maurício de Palma Nogueira destaca que, apesar da recuperação do rebanho suíno após os impactos da peste suína africana em 2020, a produção de carne bovina continua insuficiente. “Na carne bovina, eles precisam importar bastante. O consumo aumenta ano a ano e eles não conseguem produzir o suficiente”, afirma.
A estratégia chinesa faz parte de um plano mais amplo para reduzir a dependência externa em alimentos considerados estratégicos. Nogueira conclui que a preocupação da China é garantir segurança alimentar diante dos conflitos internacionais, buscando reduzir a vulnerabilidade do abastecimento.
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