Na política, nada é por acaso. Quando dois jogadores se movimentam no tabuleiro, é porque há estratégia, cálculo e, sobretudo, leitura de cenário. A aliança selada entre o vereador e presidente da Câmara de Aracaju, Ricardo Vasconcelos, e o ex-deputado federal e pré-candidato ao Senado, André Moura, tem todos os ingredientes de uma jogada pensada — e bem pensada.
André Moura não é novato nesse jogo. Já esteve muito perto do Senado, mas sofreu um revés emblemático nas urnas. Em 2018, mesmo com o peso político de uma base robusta — quase 70 dos 75 prefeitos sergipanos ao seu lado —, não conseguiu furar a bolha da capital. Aracaju, desde então, se mostrou um muro difícil de escalar. A votação modesta por aqui foi determinante para sua derrota frente a Alessandro Vieira e Rogério Carvalho.
O problema se repetiu em 2022, quando sua filha, Yandra Moura, ainda que disparada no estado como a deputada federal mais votada, enfrentou um gargalo justamente em Aracaju, amargando a sétima colocação na capital. E o filme se repetiu em 2024, nas eleições para a prefeitura da cidade, quando Yandra a filha de André Moura ficou novamente em terceiro lugar, atrás de Emília Corrêa, atual prefeita, e do nome apoiado por Edvaldo Nogueira.
Diante desse histórico, não é exagero dizer que André precisava de um “passaporte” para destravar sua entrada em Aracaju. E esse passaporte atende pelo nome de Ricardo Vasconcelos.
Ricardo não chegou onde está por acaso. É jovem, articulado e carrega no currículo feitos que poucos na política sergipana podem ostentar. Foi o segundo vereador mais votado da história de Aracaju, superado apenas por um gigante da política local, Jackson Barreto, na eleição de 1988. E mais: no primeiro mandato, já assumiu a presidência da Câmara Municipal, prova de que sua habilidade de costura política é real, concreta e reconhecida.
Mas não é só quantidade de votos. Ricardo é, acima de tudo, um político com percepção de momento e jogo de cintura. Mesmo compondo a base da prefeita Emília Corrêa, não hesita em assumir posições de independência quando considera necessário. E foi exatamente isso que fez quando repreendeu publicamente as falas machistas do então porta-voz da prefeitura contra a deputada Yandra Moura. Não ficou em cima do muro. Demonstrou que não está no jogo para ser coadjuvante.
A escolha de Ricardo como primeiro suplente na chapa de André Moura ao Senado não é um movimento isolado. Tem dedo — e aval — do governador Fábio Mitidieri, que já declarou, sem rodeios, que André é um dos seus candidatos ao Senado em 2026. E Ricardo dificilmente entraria nessa sem o sinal verde do chefe do Executivo estadual, com quem divide o mesmo partido, o PSD.
Se antes André Moura tinha musculatura no interior, mas fraquejava na capital, agora tenta equilibrar essa balança. Ricardo chega não apenas para compor chapa, mas para abrir portas, dialogar com lideranças urbanas, fortalecer pontes com segmentos da sociedade aracajuana e, claro, diminuir a rejeição histórica que André enfrenta na cidade.
Mais que um gesto político, trata-se de uma aposta calculada. Uma tentativa clara de corrigir erros do passado e alinhar estratégia para o futuro.
No final das contas, se política é a arte de construir alianças, essa é daquelas que fazem sentido. Se dará certo? O tempo e as urnas dirão. Mas uma coisa é certa: ninguém poderá dizer que faltou movimento no tabuleiro.
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