O coordenador do programa de governo do presidente Lula, candidato à reeleição, José Sergio Gabrielli, reuniu-se em São Paulo com empresários e com secretários do Ministério da Fazenda para colher críticas e sugestões ao texto em elaboração. No encontro, ele defendeu o aumento do salário-mínimo como forma de reduzir a dependência do Bolsa Família e afirmou que o custo das emendas parlamentares é o maior desafio, mesmo diante do patamar elevado da dívida pública.
Segundo Gabrielli, a série de reuniões com empresas tem como objetivo ouvir críticas e sugestões ao programa. Os principais secretários do Ministério da Fazenda também participam das discussões.
Na avaliação do coordenador, elevar o salário-mínimo funcionaria como incentivo à saída de beneficiários do Bolsa Família. Ele reconhece que a dívida pública está elevada, mas sustenta que o principal desafio a ser enfrentado é o custo das emendas.
Ele afirma que essa orientação se choca com as políticas liberais defendidas por representantes de rentistas e do setor financeiro. Historicamente, diz, a tensão tem sido contornada por acordos entre as partes, o que permitiu a adoção de medidas consensuais, como o aumento de investimentos em educação e infraestrutura. Para ele, porém, algumas questões consideradas fundamentais para a retomada do desenvolvimento ainda não estão contempladas no programa em discussão.
Juros, câmbio e política industrial
O diagnóstico apresentado é o de uma economia quase estagnada, com crescimento abaixo de 2% ao ano. Para Gabrielli, o quadro persiste desde 1990 e decorre da adoção do liberalismo econômico, que teria levado à perda de controle sobre as taxas de juros e de câmbio, consideradas essenciais para a competitividade.
Antes de 1990, segundo ele, o país mantinha controle sobre os capitais, o que possibilitava juros baixos e câmbio competitivo. A crise da dívida externa nos anos 1980 desestabilizou essa dinâmica, e a falta de competitividade técnica da indústria brasileira tornou-se um problema crítico: a produtividade aumentou, mas muitos setores permanecem em estágio incipiente.
A abertura comercial e financeira iniciada em 1990 desmontou a estratégia de desenvolvimento adotada até então, o que, na sua análise, torna urgente elevar a taxa média de lucro das empresas mais sofisticadas, tanto na indústria quanto nos serviços. Para isso, Gabrielli sugere a adoção de uma política cambial e a redução gradual dos déficits em conta corrente.
Ele defende ainda que o presidente do Banco Central, além de controlar a inflação, atue para evitar a captura do patrimônio público pelo mercado financeiro.
A recuperação do controle sobre as taxas de juros e de câmbio, acrescenta, deve vir acompanhada de uma política industrial com tarifas e subsídios para setores estratégicos, capaz de gerar a lucratividade necessária para estimular o investimento produtivo.
A modernização da indústria, que enfrenta dificuldades desde os anos 1980, é apontada como ponto central. O plano de governo, segundo Gabrielli, deve incluir um projeto voltado a elevar as taxas de lucro e a inserir o Brasil em setores de alta tecnologia. Enquanto a agricultura e a pecuária prosperaram sem apoio estatal, em razão de vantagens comparativas, o setor de serviços menos sofisticados também se beneficiou da atual taxa de câmbio.
Um ajuste fiscal robusto será necessário para estabilizar e, se possível, reverter o crescimento da dívida pública em relação ao PIB, desafio que se colocará tanto para Lula quanto para seus adversários. As propostas apresentadas seguem uma abordagem desenvolvimentista, semelhante à adotada por países como China e Índia.
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