Embate contrapõe órgãos tradicionais, que alertam contra o uso estético e a falta de estudos, e defensores da prática, que apontam riscos ao tratamento de doenças crônicas como a endometriose.
O uso de implantes hormonais e de hormônios manipulados está no centro de um intenso debate que divide entidades médicas, especialistas e órgãos reguladores no Brasil. O embate ganhou força após as recentes restrições impostas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) ao uso dessas substâncias para fins estéticos, emagrecimento ou melhora de performance esportiva, e ocorre em meio a discussões paralelas sobre o tratamento da endometriose, doença que afeta milhões de mulheres no país.
De um lado, conselhos e associações tradicionais afirmam que não há respaldo científico que garanta a segurança dos implantes manipulados. De outro, médicos ligados à Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada (SBMP) defendem a modalidade terapêutica, alegando que uma “demonização” da prática pode prejudicar pacientes que dependem desse recurso para tratar condições crônicas.
Posição do CFM e as restrições vigentes
Por meio da Resolução nº 2.333/2023, o CFM veda expressamente a prescrição e a divulgação de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, ganho de massa muscular ou melhora de desempenho físico. Fica proibida também a utilização de testosterona sem a comprovação diagnóstica de deficiência, além de hormônios anunciados como “bioidênticos” em formulações sem superioridade clínica comprovada.
O Conselho ressalta que as normas não impedem tratamentos legítimos. Terapias para condições reconhecidas como endometriose, adenomiose e menopausa continuam permitidas, desde que haja diagnóstico preciso e nexo causal. No entanto, o órgão manifesta preocupação com o uso de “justificativas clínicas genéricas” para acobertar finalidades puramente estéticas.
Críticas da FEBRASGO à manipulação
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) mantém posicionamento contrário aos implantes hormonais manipulados desde 2018. A presidente da entidade, Dra. Maria Celeste Osorio Wender, argumenta que esses produtos, feitos individualmente em farmácias de manipulação, não passam pelos mesmos testes clínicos rígidos e controles de qualidade exigidos pela Anvisa para os medicamentos industriais.
Segundo a federação, faltam estudos científicos que demonstrem a eficácia clínica, a taxa de absorção diária, o pico máximo no organismo e a estabilidade das taxas hormonais no sangue a longo prazo, principalmente no caso do implante subcutâneo de gestrinona (conhecido popularmente como “chip da beleza”).
Defesa dos implantes e o tratamento da endometriose
Em sentido oposto, a Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada (SBMP) alerta que as restrições generalizadas colocam em risco o direito ao tratamento de cerca de 10 milhões de brasileiras acometidas pela endometriose. O presidente da entidade, Walter Pace, pontua que a descontinuação de um medicamento industrializado usado contra a doença forçou muitas pacientes a dependerem de fórmulas manipuladas e implantes.
A SBMP defende que o erro e o uso indevido de hormônios por “profissionais antiéticos” para fins estéticos não devem servir de pretexto para punir quem sofre de patologias crônicas. O endocrinologista e vice-presidente da SBMP, Guilherme Renke, acrescenta que tentar banir a prática no país é ignorar o consenso científico global de personalização da medicina.
Desafio da endometriose e oferta nas redes
A polêmica atinge o ápice em um cenário onde o diagnóstico de endometriose no Brasil ainda é tardio, levando em média de 3 a 8 anos para se confirmar. Uma pesquisa recente do Instituto Ipsos indicou que 77% das mulheres diagnosticadas com a condição inflamatória já tiveram seus sintomas (como dores severas) minimizados por familiares ou ginecologistas.
Embora o CFM proíba a promoção dessas terapias para fins de rejuvenescimento ou emagrecimento, a reportagem identificou que a oferta e a associação dos implantes a benefícios de libido, disposição e contorno corporal continuam ativas em perfis públicos de médicos nas redes sociais.
Creditos fotos: Getty Images
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