O recente anúncio das novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros marca o início de uma nova fase na relação comercial entre os dois países. Com poucas chances de uma solução rápida por meio de negociações diplomáticas, setores do agronegócio já estão se reorganizando, reforçando sua presença em Washington, preparando pedidos de exceção para certos produtos e estruturando uma possível contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Em entrevista, o ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da BMJ Consultores, Welber Barral, destaca que o aumento das tarifas representa apenas uma parte de uma disputa comercial mais ampla. A investigação aberta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sob a Seção 301 amplia o poder de pressão do governo americano e deve influenciar as negociações nos próximos meses.
“Muitas das propostas são bastante unilaterais e algumas sequer dependem apenas do Executivo brasileiro, porque envolvem matérias que ainda tramitam no Congresso Nacional”, afirma Barral.
O primeiro passo será acompanhar a regulamentação das novas tarifas, que o governo americano deverá publicar até o dia 22. O ato executivo detalhará como as novas tarifas serão aplicadas, incluindo a substituição da atual tarifa geral de 10% por uma nova alíquota relacionada à investigação sobre trabalho forçado.
“A expectativa é que essa tarifa passe para 12,5%, mas ainda precisamos aguardar o texto oficial para entender exatamente como ficará a regulamentação”, explica Barral. O detalhamento também deverá indicar quais produtos poderão solicitar exclusões ou tratamentos diferenciados.
Setores como o de açúcar orgânico já se mobilizam para pedir exceções. Barral observa que, ao contrário do açúcar convencional, protegido por um forte lobby dos produtores americanos, o mercado de açúcar orgânico tem oferta limitada nos Estados Unidos. “Se ficar demonstrado que a tarifa prejudica consumidores e empresas americanas por falta de oferta interna, existe a possibilidade de o produto ser incluído em uma futura lista de exceções”, afirma.
Por outro lado, o etanol deve enfrentar impactos menores, pois o Brasil tem reduzido sua dependência do mercado americano e ampliado suas exportações para outros destinos nos últimos anos.
Além das negociações bilaterais, o Brasil deverá recorrer à OMC para contestar as novas medidas. Barral considera essa etapa inevitável, mas reconhece que seus efeitos serão de longo prazo. “Uma decisão na OMC pode levar três ou quatro anos. Ainda assim, é importante preservar o sistema multilateral e registrar a contestação”, ressalta.
Enquanto isso, o setor privado aposta em uma estratégia mais eficaz a curto prazo: aumentar a interlocução direta com autoridades americanas. Barral menciona que segmentos com atuação permanente em Washington têm conseguido melhores resultados. “Nos dois casos o que garantiu o sucesso foi inicialmente um trabalho de muitos meses”, conta Barral, referindo-se a campanhas anteriores que incluíram o café solúvel e o ferro gusa na lista de exceções.
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