A Yara Brasil, uma das principais fornecedoras de fertilizantes, alertou que a demora dos produtores rurais na compra dos insumos compromete o abastecimento para a próxima safra de verão. O presidente da empresa, Marcelo Altieri, destacou que o mercado já não possui tempo hábil para atender toda a demanda, caso os agricultores decidam adquirir os fertilizantes nas próximas semanas.
“O agricultor está aguardando o último momento para tomar a decisão. Esse é o problema: já não dá mais tempo”, afirmou Altieri.
Em entrevista, o executivo projetou uma queda de cerca de 12% nas entregas de fertilizantes ao produtor em 2026. A expectativa é que as entregas diminuam de 49 milhões de toneladas, registradas pela ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos) no ano passado, para aproximadamente 43 milhões de toneladas neste ano. Altieri enfatizou que, comparado ao ano anterior, o mercado está entre 14% e 16% atrasado nas compras.
“O que estamos entendendo do mercado é que, comparado com o ano passado, ele está entre 14% e 16% atrás. Eu acho que isso vai se materializar até o final do ano”, disse.
Além dos desafios logísticos para atender a demanda, o presidente da Yara mencionou que o movimento das negociações está se deslocando para a safrinha de milho, cujo plantio começa em janeiro. A situação é ainda mais complicada devido aos preços elevados dos fertilizantes fosfatados, que são influenciados por restrições na oferta global de matérias-primas.
Altieri explicou que a produção de fertilizantes fosfatados compete com a indústria de baterias e de transição energética por insumos como enxofre e ácido fosfórico, enquanto conflitos geopolíticos também restringem a oferta de enxofre. “Essa concorrência entre energia e indústria alimentar é o que está gerando uma distorção e mantendo os preços nesses níveis”, afirmou.
Os preços do fósforo nos portos estão em torno de US$ 900 por tonelada desde meados de abril. A Yara tem trabalhado para diversificar a origem das matérias-primas e ampliar a oferta de produtos de maior valor agregado, mantendo produção local em suas unidades no Rio Grande do Sul, Ponta Grossa e Cubatão.
Embora algumas empresas do setor tenham reduzido a produção de fosfatados, a Yara não alterou seu planejamento para 2026. Altieri ressaltou a incerteza quanto à capacidade de absorção do mercado, afirmando que a decisão sobre a compra de fertilizantes depende dos agricultores.
“A gente manteve o que está planejado para o ano. Não estamos reduzindo a produção, mas não sabemos se a demanda vai vir porque a conta está difícil de fechar”, disse.
Ele também observou que, devido à pressão sobre a rentabilidade, muitos produtores podem optar por reduzir as doses de fertilizantes ou buscar outras fontes de nutrientes. Altieri destacou que a dificuldade financeira dos agricultores não é uma questão exclusiva do Brasil, citando que os preços internacionais dos grãos não têm acompanhado a alta dos insumos, impactando a rentabilidade.
Os desafios enfrentados incluem rentabilidade, fluxo de caixa e acesso ao crédito, com o custo do financiamento para o produtor brasileiro atualmente em torno de 24% ao ano. Além disso, a incerteza climática, especialmente em anos de El Niño, continua a ser uma preocupação para o setor.
Sobre o aumento do financiamento privado, Altieri mencionou que a Yara manteve as mesmas linhas de crédito oferecidas aos produtores nos últimos anos, mas sem ampliação do montante. O executivo também previu que a produção nacional de fertilizantes deve continuar em queda, devido à perda de competitividade da indústria química brasileira, em parte devido ao alto custo da energia, como o gás natural.
“O gás natural no Golfo do México custa entre US$ 3 e US$ 5 por milhão de BTU, enquanto no Brasil oscila entre US$ 15 e US$ 18 por milhão de BTU”, concluiu.
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