Clodoaldo de Alencar e Clodoaldo de Alencar Filho: Sementes de cultura e educação em Sergipe

“Olhas-me, assim, tão dentro da retina, com tanto afeto, com meiguice tanta que o próprio coração se me quebranta e a alma se eleva à placidez divina”. // Clodoaldo de Alencar, do Livro Orós (1961)

Igor Salmeron, 27 de Fevereiro, 2023 - Atualizado em 27 de Fevereiro, 2023
Foto: Arquivo pessoal

Todos que acompanham os meus artigos de pesquisa acerca das personalidades sergipanas sabem que busco realçar pessoas que fizeram e continuam fazendo a diferença em suas áreas de atuação. Na fascinante seara educacional não é diferente, e quando o assunto é desenvolvimento do campo cultural em Sergipe, dois vultos se notabilizam com blaterado louvor: Clodoaldo de Alencar e Clodoaldo de Alencar Filho.

Após levantamentos exaustivos, observamos que Clodoaldo de Alencar adveio do Ceará, mais precisamente de Quixadá. Nasceu num dia 02 de agosto do ano 1903, filho de Seu Cláudio Gomes e de Dona Maria Gomes de Alencar. Atuou de maneira prolífica como provisionado advogado, jornalista, cronista e poeta dos mais exímios.

Descende do grande escritor José de Alencar e do ex-Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. Clodoaldo de Alencar adotou Sergipe como seu lar após convite irrecusável feito pelo então Presidente Graccho Cardoso, se estabelecendo em Estância. Lá conheceu o grande amor da sua vida, Dona Eurydice Fontes, filha do avultado médico Dr. Jessé Fontes, médico requisitado que se radicou naquela cidade.

Clodoaldo de Alencar foi colaborador assíduo de diversos jornais aracajuanos como: “Correio de Aracaju”, “Sergipe Jornal” e de Estância: “A Estância”, “A Voz do Povo” e “A Razão”. Foi membro atuante junto à Academia Sergipana de Letras donde ocupou a cadeira de número 34 que possui como Patrono Manuel Ladislau de Aranha Dantas. Das obras que podemos dar enlevo temos: “Archotes”, “Orós” e “Os mais belos Troféus de Herida”.

Faleceu num dia 09 de agosto do ano 1977, contando 74 anos de idade. Temos praças em Aracaju com seu nome bem como uma Escola Estadual localizada no Bairro Cidade Nova. A herança no campo educacional refletiu nos passos do seu saudoso descendente: Clodoaldo de Alencar Filho, grande professor que fazia da educação o seu mantra.

Alencar Filho era conhecido carinhosamente como Alencarzinho entre os achegados. Nasceu na cidade de Estância e foi casado com a ínclita historiadora sergipana Professora Aglaé D’Ávila Fontes, cujo matrimônio resultou em seus dois filhos: Del e João Marcelo. Alencar Filho foi dos primeiros Reitores eleitos da Universidade Federal de Sergipe cujo período em que esteve à frente foi marcado pela retomada do regime democrático brasileiro.

Era teatrólogo e escritor-membro junto à Academia Sergipana de Letras, formou-se em Letras Inglês pela UFS. Atuou de maneira fundamental na ambiência político-cultural de Sergipe, em específico, junto ao rádio, ao teatro, bem como na imprensa escrita e na gestão pública do município de Aracaju que no tempo auferido era administrado pelo Prefeito Godofredo Diniz Gonçalves entre os anos de 1963 a 1967.

Foi durante essa quadra que Alencarzinho convenceu a Godofredo para edificar a primeira Galeria de Artes Oficial sergipana, a “Álvaro Santos” que tinham grandes pintores à frente como: Otaviano Canuto, Florival Santos e Leonardo Alencar. A referida Galeria se tornou o espaço cultural de maior prestígio da cidade. O “crème de là crème” sergipano e os artistas plásticos interagiam de forma lancinante, assim o mercado de artes foi se consolidando em Aracaju.

Na época radiofônica o tripé de apoio para a esplêndida programação da Rádio Cultura de Sergipe Artístico era ninguém menos que: Alencarzinho, Sodré Júnior e Aglaé. Sendo o primeiro Diretor-Artístico da Rádio Cultura de Sergipe criada pelo Arcebispo Dom Távora pelos idos de 1964, a programação era inesquecível recheada de programas como: “Gato de Botas”, “Falando Francamente” e “Momento Cultural” que caracterizavam os tempos áureos do Rádio sergipano.

Na então administração de Aloísio de Campos entre os anos de 1976 a 1980 Alencarzinho foi quem deu o pontapé para criar e ser o primeiro Diretor do Departamento de Cultura e Turismo municipal, pioneira instituição pública a cuidar desses assuntos.

Clodoaldo de Alencar Filho teve proeminência junto à UFS quando foi eleito para gestão como Reitor entre os anos de 1988 a 1992. A comunidade universitária o abraçou e ele se destacou pelas melhorias que empreendeu junto ao ensino e no quesito internacionalização das relações promovidas pela universidade. Antes de ser Reitor, é importante mencionar que teve trabalho valoroso quando foi Vice-Reitor do respeitado Eduardo Conde Garcia entre os anos de 1984 a 1988.

Sua administração e modo idôneo de conduzir a UFS virou modelo, pois foi responsável por originar novos cursos de graduação, desenvolver promoções de cunho cultural cujos exemplos são a relevante Mostra de Artes Plásticas e divulgação de filmes sergipanos. A música erudita também teve seu espaço concedido assim como o efetivo incremento realizado ao lado da Madre Albertina do antológico Festival de Artes de São Cristóvão. Em sua efervescente época também fora criado o Núcleo de Assuntos Internacionais, o que elevou a UFS num nível além-fronteiras.

O universo cultural de Sergipe deve muito à atuação de Alencar Filho, responsável por produzir amor e arte por onde passou. Dentre tantas homenagens que recebeu enfatiza-se a que foi feita pela Grande Loja Maçônica. Era notório por ser um pequeno grande homem, e facilmente reconhecido pela sua humildade, cavalheirismo, fulgurante inteligência e dedicação em tudo que se propunha a fazer.

Vale mencionar que Clodoaldo de Alencar Filho era irmão do ex-Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ex-Professor da UFS Luiz Carlos Fontes de Alencar, bem como do artista plástico Leonardo de Alencar e do poeta/teatrólogo Hunald de Alencar. Alencar Filho faleceu aos 88 anos no dia 13 de março do ano 2021.

Conclui-se que homens como Clodoaldo de Alencar e Clodoaldo de Alencar Filho são figuras que devem ser rememoradas de forma contínua pelo imprescindível legado que deixam para as presentes e futuras gerações que precisam (re)conhecer as suas personalidades locais mais ilustres.

¹ Texto escrito por Igor Salmeron, Sociólogo - Doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (PPGS-UFS), servidor do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, faz parte do Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP-UFS). Membro vinculado à Academia Literocultural de Sergipe (ALCS) e ao Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras (MAC/ASL).

E-mail para contato: igorsalmeron_1993@hotmail.com

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