
Sergipe nasceu espanhol. Por ordem de Felipe II, o rei do império onde o sol nunca se punha. Quando nasce nas Filipinas, se põe na Argentina.
Na época, a Espanha mandava onde interessava mandar. Inclusive no império português subjugado.
Durante meio século, sob o império espanhol, esteve em sete, sob o governo holandês de Maurício de Nassau; e outros 43, na prática, governado pela Câmara Municipal de Salvador.
Somente em 1648 é que o renascente império português começou a levemente se importar com Sergipe.
Com a expulsão dos holandeses, em Pernambuco, em 1654, logo a seguir é que o rei de Portugal, finalmente nomeia, ele mesmo, um governador para Sergipe.

Manuel Pestana de Brito viera pra Pernambuco, reforçar as forças contra os holandeses e ao chegar em Sergipe, fez o que todo o interessado na capitania faria: arrendou uma fazenda em Itabaiana, tornando-se curraleiro, um criador de gado sem a propriedade da terra.
E aí começam os problemas.
Quis governar; mas os baianos não deixaram.
Em primeiro, o acusaram de abandonar São Cristóvão. Só que a capital da capitania nunca tinha se desenvolvido, sequer a matriz era de alvenaria; além do que, fora incendiada pelo comandante português, Bagnuolo, em fuga do exército holandês, em 16 de julho de 1637.
Em segundo, que ao governador era permitido complementar a renda, até com jogos de azar.
Nos dois anos que tentou governar, Pestana de Brito viveu o tempo inteiro entre tentativas de o fazer, e a permanente conspiração da Câmara de Salvador, a influenciar o Governador-Geral. E a lhe minar o poder;
Não podia cobrar impostos, logo, ter renda para administrar. Salvo se pra Salvador, sem restar um centavo aos cofres da capitania.
Em 1656, com a última demissão do cargo pela Bahia; e a primeira derrama decretada, sobre as fintas, ou seja, impostos atrasados, o caldo entornou.
Em 5 de novembro de 1656 a vaqueirama, quase toda de Itabaiana, invadiu São Cristóvão, num ato desesperado, tentando conter o desembargador José Rabelo Leite, que veio da Bahia com poderes, literalmente, de vida e morte sobre os curraleiros.
No dia 8, os revoltosos bateram em retirada, frente à força baiana que chegou a São Cristóvão. E aí começou a perseguição pra valer.
Desmancharam o tecido social sergipano, com prisões, sempre arbitrárias, e confiscos.
As punições foram tão abusivas que, logo depois dos acusados apenados, queimaram os processos, para não caber reclamações, revisões, posteriormente.
Da nascente aristocracia sergipana, foram apenados 70 proprietários, de terras e gado, ou apenas de gado; os chamados curraleiros. Incluindo seu governador, Manuel Pestana de Brito.
Um duríssimo golpe na nascente sociedade sergipana.
Nunca mais Sergipe foi o mesmo.
Tornou-se excessivamente comedido, e somente quase duzentos anos depois, aproveitando o fim da intermediação de Salvador junto a Lisboa; com o rei no Rio de Janeiro, e a presença de um líder destemido, e excelente negociador, conseguiu a sua emancipação completa por decreto real em 8 de julho de 1820.
Se sergipanidade em Sergipe houver, não foi um ato qualquer que isso gerou. Mesmo que tenha sido colocado na cesta do esquecimento, propositalmente ou não, a sergipanidade nasceu de lágrimas, soluços e sangue.
Em 5 de novembro de 1656.
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