Ciclos políticos cada vez mais curtos explicam a virada conservadora na região. Para o analista Thiago Vidal, o movimento vai além de conjunturas e reflete condições profundas.
A configuração política da América Latina, que tem mostrado uma crescente inclinação à direita, possui raízes em condições estruturais profundas que impactam toda a região. Essa é a avaliação de Thiago Vidal, diretor de análise política da Perspectiva, em entrevista ao programa Hora H.
Vidal reconhece que o pêndulo político na América Latina sempre esteve presente, mas destaca que os ciclos políticos têm se tornado cada vez mais curtos. Ele menciona que estamos diante de um movimento que, de maneira geral, durou entre 10 a 15 anos. A primeira onda de esquerda, que se manifestou no início do século, foi seguida por um período de centro-direita, que durou cerca de cinco anos, e posteriormente pela retomada da esquerda após a pandemia.
Para Vidal, o que distingue o atual momento são as severas condições estruturais que a região enfrenta. Ele afirma que a América Latina está muito mais endividada do que há 20 anos, além de passar por uma deterioração nos serviços públicos, especialmente nas áreas de saúde e segurança. Ele também destaca a incapacidade da região em aumentar indicadores básicos de desenvolvimento econômico, como investimento e produtividade.
Esses fatores estruturais, segundo o analista, podem encurtar a atual onda pró-direita. A expectativa é que esse grupo político, que foi eleito para resolver problemas persistentes, enfrente dificuldades se não encontrar soluções. Vidal alerta que, caso os problemas estruturais não sejam abordados, a população não hesitará em mudar novamente de orientação política.
“Os latino-americanos não terão problema algum em retornar à direita, à esquerda, ao centro, enfim, qualquer que seja o grupo político que eventualmente prometa resolver os mesmos problemas que não vêm conseguindo ser resolvidos”, declarou Vidal.
Questionado sobre a solidez das instituições na América Latina, ele afirmou que a preocupação não deve ser com o funcionamento delas, mas com o fato de estarem constantemente sendo testadas. Ele citou exemplos de países como Brasil, Peru, Equador e Colômbia, onde esse fenômeno é recorrente.
Sobre a Colômbia, Vidal lembrou do clima de apreensão que antecedeu a eleição do presidente Gustavo Petro, quando empresas incluíram em seus contratos uma cláusula que permitia rescisão em caso de instabilidade política. “Isso não aconteceu, ou seja, o receio que havia naquele momento me parece muito desproporcional em relação ao que era o governo Petro”, avaliou.
Ele também comentou sobre o candidato de direita De La Espriella, considerado um representante de uma direita mais radical, e foi enfático ao afirmar que a Colômbia não pode ser comparada a El Salvador. “A Colômbia não é El Salvador, é uma geografia muito mais complexa, uma população muito mais complexa”, disse.
Vidal conclui que o uso da força não será suficiente para resolver os problemas de segurança, especialmente diante de grupos armados como o ELN — Exército de Libertação Nacional, que atua além das fronteiras colombianas, inclusive a partir da Venezuela. Quanto ao papel do presidente americano, ele reconheceu que houve um estímulo externo, mas ponderou que os fatores internos foram decisivos para o resultado eleitoral colombiano.
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