Manoel Moacir C. Macêdo; Manoel M. Tourinho; Gutemberg A. D. Guerra

A extrema direita em evolução na Europa ameaça as Américas do Norte, Central e do Sul e o humanismo do planeta. Plataformas econômicas centradas na desumanização, atingem com muita dor os países periféricos, como o Brasil e a Argentina no extremo Sul do continente. Incertezas nos Estados Unidos no outro extremo, completam as agendas de destruição social. Não se trata de um fenômeno recente e nem um acaso da natureza. Ele tem bases sociais, políticas e econômicas construídas no tempo de quase um século. 

Alguns registros são premissas para estudos explicativos. As crises do século 21, advém de três ordens, segundo os cientistas sociais Baumann e Bordoni. Crise do estado, da modernidade e da democracia. O estado vive em crise porque apostana “mão invisível do mercado”. Nada é invisível enada é social para o coletivo. As medidas para lidar com as crises, são desagregantes e geradores de um mal-estar social na civilização. 

A modernidade em crise, é consequência das promessas do apanágio modernista, ao ponto do esquecimento ou do não cumprimento das mesmas.   “Nunca é previsível; trata-se sempre de falhas, incúrias, incompetência e omissões que não preveniram as ocorrências”. Contradições do modelo mundial da acumulação capitalista, escancaram na recente catástrofe climática do Rio Grande do Sul. As políticas dos movimentos da extrema direita no Velho Continente afrontam a clássica democracia, a exemplo do esgotamento da utopia do regime de governo humanista, as migrações de pobres e desesperados, a nostalgia tradicionalista e a crise climática antrópica. 

O extremismo de direita sobreviveu à II Guerra Mundial com a vitória de um certo capitalismo frente aos nazistas e fascistas europeus. O mundo rachou em capitalismo e socialismo, e ascendeu a Guerra Fria, mantendo a dicotomia ideológica e a hibernação extremista.  Polarização alimentada pela revolução socialista, pretérita ao conflito mundial. As políticas públicas de bem-estar-social, patrocinadas pelos Estados Unidos como compensação do pós-Guerra, configurou uma geopolítica bélica, esentimentos extremistas emergiram na forma de preconceitos racistas, terrorismo e desigualdade social. A globalização, marcada pelo Consenso de Washington, manual das receitas do capitalismo mundial sob a égide norte-americana, acentuou a acumulação de riqueza, solapou os valores iluministas e promoveu a abissal desigualdade entre Nações e dentro delas.  

A fratura exposta pela extrema direita, ascendeu na contestação da democracia liberal no seu próprio interior, pelo populismo de direita, pauta moral, enacionalismo. Não são aventuras de aloprados erevolucionários, mas um movimento com inovação, intelectuais, partidos políticos, organizações e financiadores. O consenso antifascista foi quebrado e a extrema direita alcançou popularidade. Ataques organizados por organizações partidárias, a exemplo do Bloco Flamengo (VB) na Bélgica, da Frente Nacional na França, dos Democratas Suecos (SD) na Suécia e da empresa Cambridge Analytica, entre outros, solaparam a democracia e a consciência cidadã. O uso das mídias, a exemplo da internet, tem sido crucial na ramificação dos valores da extrema direita, como o racismo estrutural, a xenofobia, a discriminação das minorias, e o medo do comunismo. 

Brexit, movimento de saída da Inglaterra da Comunidade Europeia, foi o marco visível da extrema direita. O Partido Conservador eorganizações da direita radical, a exemplo da VoteLeaveforam patrocinadores relevantes. Para o professor da Universidade do Colorado nos Estados Unidos, Benjamin Teitelbaum, na obra “Guerra pela eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista”, as ações da direita radical, constitui-se num “movimento internacional que mistura lobby, círculo intelectual, protesto e paramilitarismo em locais-chave de conflito político”.

Em face dos fatos, cenários de ameaças, ecrescimento dos partidos políticos da extrema-direita na Europa nas recentes eleições do Parlamento Europeu da combalida Comunidade Europeia, urgeum novo Renascimento. Todos somos globalizados, e isso significa o mesmo para todos. A superação das crises ultrapassa a economia capitalista de mercado e a globalização. Retornar as economias locais, sem privação e com inclusão social ampla, onde o território funcione na lógica das habilidades versus as necessidades.  

Os autores, são agrônomos e respectivamente PhD pela University of Sussex, Inglaterra; University of Wisconsin, Estados Unidos; e École des Hautes Études, França.