A Assembleia Nacional cubana debateu medidas para aliviar a crise na ilha. Especialista classifica as mudanças como tentativa 'desesperada' de contornar sanções americanas via abertura ao capital estrangeiro.
A reforma econômica e do Estado em Cuba, debatida nesta quinta-feira (18) na Assembleia Nacional, não é capaz de levar a ilha a uma economia capitalista. Trata-se, segundo o professor e especialista em economia latino-americana Maicon Cláudio da Silva, de uma tentativa “desesperada” de contornar o bloqueio imposto pelos Estados Unidos.
Maicon, que é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), afirma que as medidas adotadas visam oferecer algum alívio à economia cubana, especialmente através da flexibilização dos investimentos estrangeiros e das importações. Ele ressalta que essa ação é necessária em um momento em que as principais fontes de recursos da ilha, como o turismo e a exportação de serviços médicos, estão sendo severamente impactadas.
“São medidas, quase que desesperadas, para dar algum tipo de respiro à economia cubana”, comentou o especialista.
O professor também observou que as novas medidas se somam a outras já implementadas, como a permissão para pequenas propriedades produtivas e a reforma monetária de 2021. Ele explica que o bloqueio dos EUA afeta não apenas as relações comerciais entre Cuba e os norte-americanos, mas também as interações da ilha com o restante do mundo.
“Os EUA são uma potência imperial e econômica que, na verdade, controla o sistema financeiro e a economia mundiais”, destacou Maicon.
Nos últimos meses, com o endurecimento do bloqueio sob a administração de Donald Trump, várias empresas, incluindo grandes redes hoteleiras como Meliá e Iberostar, além de operadoras de cartões como Visa e Mastercard, interromperam suas atividades em Cuba. Essa situação tem gerado uma dependência ainda maior da economia cubana em relação ao turismo e à exportação de serviços médicos.
A reforma econômica em discussão inclui mudanças nas políticas fiscal, cambial, de comércio exterior e nos subsídios, além de uma reestruturação do Estado cubano, com a promessa de manter o foco na justiça social e na redução das desigualdades sociais. No entanto, Maicon Cláudio da Silva descarta a possibilidade de uma transformação liberalizante que leve a economia de Cuba a um modelo capitalista.
“Enquanto existe bloqueio, é impossível o surgimento de uma burguesia, porque a própria acumulação de riqueza, em Cuba, é bloqueada”, avaliou o professor.
O especialista também comentou sobre a comparação com o modelo chinês, que combina mercado privado com controle estatal, destacando que a relação entre os EUA e a China facilitou o desenvolvimento do país asiático, algo que não se aplica a Cuba.
O programa de reformas cubano contempla mais de 20 medidas para incentivar o investimento estrangeiro e descentralizar as decisões políticas. Além disso, há planos para ampliar a participação de acionistas em empresas cubanas e realizar mudanças no setor de turismo e na economia imobiliária.
O bloqueio econômico contra Cuba, que já se estende por quase 70 anos, foi intensificado pela administração atual no final de 2025, o que causou uma crise energética e um aumento significativo dos preços de produtos essenciais, afetando diretamente a população.
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