A PEDAGOGIA NA DIMENSÃO EPISTEMOLÓGICA

Coluna Papo de Pedagogo, 20 de Maio, 2022 - Atualizado em 21 de Maio, 2022

No dia 20 de maio, comemora-se o dia do(a) Pedagoga(o) no Brasil. Dia simbolicamente para refletirmos sobre as lutas e conquistas de ontem e de hoje, para a afirmação da Pedagogia, considerando principalmente suas contribuições sociais.

A intenção aqui é, sempre criar e potencializar espaços de diálogo sobre a Pedagogia, a partir de diferentes dimensões, seja nos cursos de formação, na profissão e ou no campo de conhecimento (acadêmico). Ao longo do tempo, a pedagogia tem sido silenciada no cenário brasileiro, bem como, os equívocos que historicamente tem colocado a Pedagogia a um lugar de não ciência, reduzindo-a há um caráter de atuação profissional e atender os interesses mercadológicos.

Sabe-se, que a Pedagogia tem um papel crucial na construção de uma sociedade justa e livre das amarras dos exclusivistas, contudo, é necessário que a Pedagogia se empodere de sua dimensão epistemológica e não seja vista apenas em uma concepção restritiva de um curso de graduação para atuar em sala de aula. Precisa-se, valorizar a Pedagogia como saber, formação e profissão em nosso país, e só por meio deste (valorização) que vamos avançar nas discussões e compreensão do seu papel politico, social, cultural e econômico.

Texto de Reflexão escrito pelo  Prof. Severo -UFPB especialmente para este dia.  

A Pedagogia precisa ser assumida em sua complexidade teórica. É vexatório que as pessoas recorram à Grécia Antiga para designá-la como condução da criança e, com isso, reservá-la a uma zona de menosprezo acadêmico, ignorando uma história de pelo menos quatro séculos desde sua institucionalização na universidade ocidental. A Pedagogia é uma ciência, possui objeto próprio (a prática educativa como intervenção concreta, intencional, situada no tempo, no espaço e sob diferentes condicionantes). Enquanto essa complexidade não for assumida, continuaremos a aplicar o "pedagógico" como um adjetivo difuso, quando senso comunizado e, pior, restrito a um caráter técnico, esvaziado desubstancialidade;



Assumir a Pedagogia como ciência é uma tarefa, por incrível que pareça, ainda em aberto nos cursos que levam esse nome. Os cursos de Pedagogia no Brasil, reduzidos à formação de professoras/es, não explicitam pq continuam a ter essa denominação, expondo um consenso frágil e questionável de que a docência seria a base do curso. Como pode uma prática (dentre outras tantas) determinar a formação em um curso cujo campo teórico de referência (ainda que não assumido) é amplo, plural e multifacetado? Esse consenso - produzido à margem de qualquer referência teórica à Pedagogia, mas, ao invés disso, a um sociologismo que percorre o debate sobre formação de educadores/as - colaborou para a desintelectualização do curso de Pedagogia, produzindo o apagamento da teoria e da pesquisa pedagógica, e da formação de pedagogas/as para outras modalidades do trabalho pedagógico. É curioso que em um momento em que muito se fala muito sobre educação, se fale pouquíssimo em Pedagogia, inclusive no próprio curso, em que estudantes cursam 4 anos de um amontoado de disciplinas que não as/ajudam, ao final da formação inicial, a responderem com consistência a pergunta chave: o que é a Pedagogia?



Situação igualmente paradoxal é a o lugar da Pedagogia (ou seria melhor não lugar?) na pós-graduação brasileira. A história da institucionalização da pós-graduação demonstra a formação de uma esfera de intelectualidades sobre educação desassociadas da Pedagogia. Correndo o risco de ser muito categórico, mas sendo, sou levado a constatar que, de modo geral, a frágil relação entre pesquisa produzida nos PPG de educação e a inovação de processos educativos é um indicativo de que esses programas são instâncias pouco pedagógicas, em que pesem esforços recentes, porém pontuais. Cultiva-se ali uma cultura de atomização de estudos segundo as famigeradas ciências da educação (que, paradoxalmente, não têm a educação como objeto epistêmico, mas algo que no campo educacional as remetem às suas áreas-mãe). Diferentemente da maioria dos cursos de graduação, a Pedagogia não mantém uma relação orgânica com o PPG que lhe é correspondente. Esses PPGs, via de regra, não têm sustentado o debate sobre a teoria e a pesquisa pedagógica ou sobre o que há de pedagógico a pensar e a operar no fenômeno educacional. A psicologia tem a sua pós; a sociologia também. A Pedagogia tem o quê quando nem como área de conhecimento ela figura no CNPq e na CAPES? Urge a necessidade de começarmos a nos debruçar sobre a viabilidade de programas de pós-graduação em Pedagogia;

Onde está o "pedagógico" nos currículos de Pedagogia? Em disciplinas ditas metodológicas? As disciplinas dos tais fundamentos da educação, em geral, parecem mais uma espécie de minicurso de sua área-mãe com referências residuais sobre as práticas pedagógicas. Aliás, qual o sentido de fundamentos da educação que não se assumam pedagógicos? A ironia das ciências da educação é que, como explicita toda uma literatura internacional, sequer superaram as fronteiras disciplinares quando emergiram justamente como paradigma que visava interseccionar os estudos educacionais. O que se vê, em matéria de tradição curricular, é que os componentes relativos aos tais fundamentos decorrem sem muita organicidade, às vezes justapostos e outras vezes rivais (disputando entre si a proeminência de constituir o domínio de maior relevância para aqueles estudos). Minha aposta é a de que a Pedagogia pode sintetizar o que há de significativo dessas ciências para pensar e mobilizar a ação educativa. Isso se dá em função do caráter práxico da Pedagogia: ela refunda esses saberes nas práticas por uma racionalidade que permite conhecer e intervir dialeticamente. Isso nos leva a pensar que há fundamentos embutidos nas práticas que se revelam quando uma sensibilidade epistemológica é capaz de engendrar um outro sentido para o que se entende como fundamento, não como algo que se aplica, mas como algo que se reestabelece na relação com o contexto educativo (impossível de reduzir-se a uma única dimensão de analise). Aqui proponho uma inversão ousada: de fundamentos da educação a fundamentos pedagógicos.

Por fim, qual o futuro da profissão de pedagoga/o no Brasil? Associações que se dizem defensoras do curso de Pedagogia sequer operam com essa denominação profissional. A/o pedagoga/o desapareceu na/o professora/or. Defender a especificidade da profissão pedagógica não implica criar acirramentos com a profissão docente. Ambas são constituídas por saberes transversais estruturantes, inclusive pela própria Pedagogia como campo, afinal não há docencia sem saberes pedagógicos. Porém, há Pedagogia sem docência. A docência é uma prática histórica que atende a finalidades específicas vinculadas ao desenvolvimento da função social da escola. Seu estatuto radica aí. Docência não é sinônimo de trabalho pedagógico. As razões que fizeram o curso de Pedagogia assumir a formação de professoras/es como centralidade devem ser submetidas à dialética da crítica histórica. Não há nenhuma tese inquestionável que prescinda da necessária busca por elucidação, a partir da análise dos movimentos históricos, de novas e velhas demandas que se impõem à profissão de pedagoga/o.  A dificuldade de reconhecer a especificidade da Pedagogia como profissão resulta em um grave empecilho: a baixa expressividade do debate sobre a regulamentação da profissão de pedagoga/o. Em um contexto de tantas forças anti-educativas, regulamentar a Pedagogia é muito mais do que uma agenda corporativista, como podem dizer, é preservar as bases científicas, éticas e políticas de uma profissão que adquire cada vez mais sentido quando reconhecemos a necessidade de qualificar as práticas educativas dentro e fora das escolas com uma reflexão rigorosa cientificamente e politicamente engajada sobre os fins e modos de ação, em uma perspectiva de defesa radical da democracia, da justiça e da inclusão social. Prof. José Leonardo Rolim de Lima Severo (UFPB) e membro da Rede Nacional de Pesquisadores em Pedagogia.

 

É necessário refletirmos e enfatizarmos, quão rica é essa profissão que deve ser valorizada. Uma profissão que existe há várias gerações, sempre de grande importância para sociedade, com o papel de desenvolver valores humanos, o bem estar social, e principalmente, a educação.

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