DISCRIMINAÇÕES E PRECONCEITOS

Manoel Moacir Costa Macêdo; Renato Brasileiro Júnior; Gutemberg Armando Diniz Guerra e José Albertino Carvalho Lordelo

Manoel Moacir, 09 de Abril, 2021 - Atualizado em 09 de Abril, 2021

As reminiscências do curso universitário na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - EAUFBA, nos anos setenta, ultrapassaram as restrições dos chamados “anos de chumbo” e da “lei do boi”, para alcançar outros significados da convivência social. Registros de machismo, homofobia, preconceitos e discriminações, eram escamoteados pelos apelidos, trotes e brincadeiras. Não eram específicos ao campus de Cruz das Almas, no recôncavo baiano, mas da sociabilidade da época. Não existia a palavra bullying e nem a tipificação criminal por discriminações de raça, gênero e sexo.

De pronto, o curso de engenharia agronômica, era essencialmente masculino. Os resistentes às intempéries cáusticas do tempo. No caso da nossa turma, dos centro e vinte aprovados no temido vestibular, apenas cinco eram mulheres. Oitenta por cento delas nascidas e criadas à beira do campus e vizinhanças. Quiçá, as tradicionais restrições familiares à independência feminina. Naquele ambiente, eram comuns os gritos noturnos nos alojamentos exclusivos para os machos: “mulher casca de jaca ...”. Não tinha o sentido de discriminar as colegas, mas o sentimento machista tatuado na identidade brasileira.

Outra expressão discriminatória à vista, era a inexistência de professores pretos. A memória guardou apenas a predominância de brancos e alvos. Existiam poucos miscigenados e afrodescendentes. Apesar do recôncavo baiano, ser uma região marcada em sua história, pela presença africana. Interpretações para essa supremacia racial: a tardia escravidão e a qualificação da mão-de-obra das famílias proprietárias dos massapês, cultivos da cana-de-açúcar e engenhos dos coronéis. Uma maioria de brancos, podia ser notada entre os estudantes selecionados ao curso. Em nossa turma, menos de vinte por cento, podiam ser identificados como miscigenados. Marcas da persistente desigualdade social e do racismo estrutural brasileiro. Outra discriminação velada, acontecia entre os estudantes do curso de agronomia e os remanescentes e minoritários do curso de ciências biológicas. O primeiro predominantemente masculino, o segundo feminino. Apelidos e furacões inesquecíveis cunhados nos estudantes do último. Na sutiliza das discriminações florescia o dilema entre os urbanos e os rurais.

A homofobia, era abortada em sua clareza, mas expressa em apelidos  facilmente identificados. Com o tempo se normalizava. Similares vernizes nos apelidos para os possuidores de restrições físicas. Também eram discriminados, os usuários dos “baseados de maconha e coquetéis de cogumelos”. Identificados às costas, como maconheiros. No recente livro “Caí na estrada com os Novos Baianos”, grupo musical que revolucionou a música popular brasileira na mesma quadra social de nossa vivência universitária, a autora escreve que “depois do café, passávamos um bom tempo debaixo do pé de carambola fumando um baseado, conversando e rindo muito”. No nosso ambiente, era um ato reprimido e sujeito à perseguição policial. Outra discriminação, recaia sobre as relações afetivas. Não ficou registrado, nenhum relacionamento homossexual. Sofriam restrições as relações heterossexuais entre colegas, distintas dos padrões tradicionais. Algumas foram consolidadas em casamentos. Acolhidos os namoros tradicionais e discriminados aqueloutros alternativos de uma juventude prenhe de hormônios e desejos sexuais.

A mais brutal das discriminações, era a social e econômica. Escondida e justificada. Estratificadas na escala da desigualdade social. Os ricos carregavam o perfil do “senhor mandante”, tal qual um feitor dos latifúndios improdutivos e dos monocultivos da colonização. Eram os bem-criados e educados como superiores. Um procedimento acolhido como uma vantagem em “subir na vida”. Os sobrenomes identificavam as supremacias e acolhiam seguidores. Alheios às maldades, justificadas como brincadeiras entre colegas. Desprezavam os sentimentos feridos e consequências nas criaturas. Não existia a opção de conviver com as naturais identidades. Suportar ou abandonar o curso. Às minorias, o silêncio e sacrifícios naquela coletividade. Para alguns historiadores, “a complacência desenvolvida pelas camadas sociais mais pobres [do Brasil] não seria uma estratégia racionalmente arquitetada, mas um fenômeno social naturalizado ao longo do tempo, derivado da subordinação social e política”. Assim foram, os nossos anos universitários, num tempo que não existe mais.

Manoel Moacir Costa Macêdo; Renato Brasileiro Júnior; Gutemberg Armando Diniz Guerra e José Albertino Carvalho Lordelo são engenheiros agrônomos.

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