Caminhos da produção agrícola brasileira (iiI) Pedro Abel vieira e Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 26 de Maio, 2023 - Atualizado em 26 de Maio, 2023

 

Foto: depositphotos

 

 

O deslocamento da fronteira agrícola brasileira não aconteceu sob condições de normalidade, ao contrário causou agressões ao meio ambiente, ao emprego e à saúde das criaturas. Importante destacar que a matriz da produção agrícola brasileira desde os seus primórdios, tem sido lastreada no mercado externo e no “espírito capitalista” dos ganhos em escala, advindos da produtividade dos produtos agrícolas fomentada pela PTF - Produtividade Total dos Fatores. 

Os engenhos de cana de açúcar no período colonial foram um exemplo de inovação induzida do exterior, na integração entre agricultura e indústria num mesmo lócus de produção. O café, após uma longa migração do Pará para a região Sudeste, no século XVIII foi considerado a fonte de acumulação de capital que alavancou o processo de industrialização brasileira. Os ciclos agrícolas, embora exitosos segundo as suas concepções e nas dimensões econômica e social, produziram tensões ambientais, notadamente quanto ao desmatamento e à degradação do solo, mas, nada se compara ao ciclo que iniciou em meados do século passado, quando o mundo ainda vivia sob o espectro da ameaça da teoria “malthusiana” como condutores de políticas globais. Um marco desse último ciclo foi o serviço de assistência técnica e extensão rural nas décadas de 1950 e 1960, estruturas estaduais, coordenadas pela Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural - ABCAR, criada em 1956.

Na perspectiva internacional, entre outras, destacaram-se a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento - USAID e o Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados - Prodecer que patrocinaram diversos planos agrícolas para o Brasil, como a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba - CODEVASF que enfatizaram a expansão da agricultura nos biomas do Cerrado e da agricultura irrigada na Caatinga. 

Essas ações, perante a agricultura brasileira foram financiadas pelo capital internacional nas décadas de 1960 a 1980. Elas privilegiaram o aumento da produção pela expansão da área agrícola e a intensificação do capital nos fatores de produção, sem levar em conta as externalidades ambientais e as sociabilidades das populações rurais. Os avanços tecnológicos com algum apelo ambiental, mereceram destaque nos raros programas de micro bacias, plantio direto e do uso de microrganismos em substituição aos fertilizantes sintéticos. Importante destacar que essas inovações, não tinham como prioridade os cuidados ambientais e da saúde, mas o aumento linear da produção e produtividade agrícola. Estratégia que causou tensões da agricultura com o meio ambiente. Até a década de 1970 a expansão da agricultura estava concentrada no bioma da Mata Atlântica. A seguir, a intervenção foi nos biomas Cerrado e Pampa pelo produtivismo agrícola. A Amazônia e o Pantanal ficaram nesse primeiro momento à margem. 

O Brasil não tem sido capaz de resolver a contradição entre a oferta abundante de alimentos baratos, as restrições do clima e a fome aguda de seus nacionais. Reformas profundas, são requeridas perante a abismal desigualdade social e os desafios de sustentabilidade ambiental. A velocidade no avanço do conhecimento não está na mesma direção das demandas sociais, climáticas e as mudanças globais. Produzir sim, mas com sustentabilidade e de forma integrada entre o meio ambiente, as pessoas e os processos produtivos.

Pedro Abel vieira e Manoel Moacir Costa Macêdo, são engenheiros agrônomos

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