FOME E DESIGUALDADE NO BRASIL (VII) por Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira

Manoel Moacir, 21 de Julho, 2023

A fome ultrapassa fronteiras e teorias. É um constrangimento moral da humanidade. Erradicá-la, ultrapassa qualquer limite político e ideológico. Uma chaga inaceitável no iluminismo. O segundo Objetivo do Desenvolvimento Sustentável da ONU – Organização das Nações Unidas, reafirma a imperatividade de “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável”.

Garantir o acesso universal à alimentação de qualidade é imprescindível para a construção de umfuturo justo e sustentável para o planeta. Não tem justificativa no plano civilizatório a existência da fome aguda. É inadmissível aceitar como natural aconvivência entre humanos apartados pelo mais elementar direito ao alimento, a energia da vida. Sem ele, a inexorabilidade do anunciadodesencarne.

No caso brasileiro, não existe justificativa para aenorme assimetria entre a produção e o consumo de comida. Produção pujante da agropecuária, fome aguda e insegurança alimentar. Um País identificado como a “fonte estratégica de alimentos para a humanidade, potência ambiental do planeta’”, ricoem biodiversidade, em energia, terra e água doce,admitir como consensual a convivência com a fome em seu território. Uma combinação inaceitável do real com o sobrenatural cristão. Duvidosa solidariedade entre o material e espiritual entre ditosirmãos.

A romancista nordestina, região mais atacada pela fome, pela seca e pela cerca, onde cerca de 40% de sua população está em insegurança alimentar, Raquel de Queiroz, no clássico romance “O Quinze”, publicado em 1930, quase um século passado, assim reportou sobre a fome: “Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, a sombra da mesma cruz”.

          Portanto, não se trata de um fato atual, mas de um flagelo secular atualizado pelo silencio do tempo e dos controles sociais. Escondem as contradições expressas na produção abundante de alimento, no potencial mercado consumidor, na desigualdade e carência de renda dos vulneráveis em comprar comida. Situação identificada como a “carestia do alimento”.  

Para uns articulistas, no Brasil “nos últimos anos, as condições de vida do povo brasileiropioraram drasticamente”. Não bastasse os efeitos danosos da pandemia, mais da metade de população brasileira passa fome ou está em insegurança alimentar”. Ao mesmo tempo, o desemprego e a extrema pobreza alcançaram 15% da população, aumentou o valor da cesta básica e cresceu a inflação. A equação da carestia dos bens da vida, realça o manifesto: “abaixo a carestia, que a panela está vazia”.

Essa realidade, atinge a todos, mas são os mais pobres, que mais sofrem, na contingência de extrema desigualdade social. A fome é a mais imoral das tragédias. Não estão descartados, o consumo exagerado e o desperdício de produtos agrícolas prontos e acabados, vis-à-vis a humilhação de humanos famintos na fila do “osso, da carcaça de frango e das disputas por restos de comida em lixões”.

Não tem outro tempo para enfrentar e erradicar a fome, ela tem pressa. A hora é agora, para asegurança e harmonia social coletiva.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira,são engenheiros agrônomos.

 

 

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