AS REZAS DO MÊS DE MAIO

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 02 de Maio, 2021 - Atualizado em 02 de Maio, 2021

AS REZAS DO MÊS DE MAIO

Isaura de Serafina, uma solteirona de muitos anos, dada aos pesados trabalhos na roça, como “pataqueira”(que ganhava uma pataca por dia), para arranjar uns tostões, enfronhava-se nas malhadas alheias, durante todo o dia, principiando pelas cinco e meia. E isso, de janeiro a janeiro. Durante o mês de maio, juntava-se a Cila de Teodoro, para sustentarem, juntas, a devoção mariana.

Cila era outra solteirona, que andava sempre em companhia de Chi, sua irmã, igualmente pacata e não dada às frivolidades de moças e rapazes. Chi e Cila eram pessoas respeitadas, reverenciadas pela comunidade, por serem dadas às rezas e aos cuidados com as mulheres paridas. Eram “tratadeiras” de resguardo pós-parto.

No mês de abril, as três se ajuntavam e planejavam o devocional de maio. As famílias, onde as rezas se dariam, os cânticos, ladainhas, as flores e as velas. Estas quase sempre eram doadas, de modo que quase sempre sobravam para algum enterro de gente desfavorecida, ou para as rezas de via-sacra, na quaresma. No domingo seguinte, a vizinhança inteira já estava sabendo. Bastava dar o recado na Bodega de Zequinha Machado, em Chico Cajueiro e em Aurélio. Dali, os bebuns e a meninada, que vinha comprar um doce ou uma quartinha de açúcar, se encarregavam de noticiar a todos.

No dia e hora acertados, em geral, pelas seis da noite, o adjunto se daria em algum lugar. Nas famílias mais abastadas, havia até foguete dos bons, encomendado a Seu Chiquinho de Dalena, afamado fogueteiro do Congo. Havia, também doces para as crianças e um prato de arroz doce ou de mugunzá para os adultos. Nas famílias menos afortunadas, apenas água do pote ou, quando muito, fubá de milho ou pipoca. Era servida uma iguaria, ao menos, para não se fazer feio.

Cila, Chi e Isaura não sabiam ler, nem escrever. Entanto, sabiam de cor todas as rezas, cânticos e orações da igreja: o Ofício das Almas, o Ofício da Imaculada, a Ladainha, o Ato de Contrição maior, e as orações das novenas de todos os santos mais populares, como São José, Santo Antônio, São João, São Pedro, São Miguel, São Sebastião, Santana e São Joaquim. Quando se tratava de Nossa Senhora, os olhos das rezadeiras brilhavam com maior intensidade, pois, mesmo analfabetas, sabiam rezar e cantar em Latim, conforme aprenderam com o Padre Cupertino.

Quando chegava o mês de maio, do primeiro ao derradeiro dia, as famílias eram visitadas, com certo ajuntamento. Era um mês de festa que fazia Isaura se esquecer da aspereza da malhada alheia. Ela saia do Congo, em companhia de Lia, ou de Zé de Das Mina, seus irmãos, ou de ambos e se botava para o Cajueiro, onde a maior parte das rezas acontecia.

Pontualmente davam início ao ato, com as jaculatórias, todas em língua estrangeira, conhecida apenas por quem frequentava às missas na Matriz, aos domingos cedinho. Os que desconheciam, meneavam a cabeça em sinal de que acompanhavam reverentemente o ato, ajoelhando-se ou ficando de pé, nos momentos indicados pela paraliturgia. Quase todos, entanto, sabiam responder com o “ora pro nobis”, meio mal pronunciado, mas certamente compreendido pela Virgem Maria.

A cada boca de noite, mesmo em meio às águas de maio, o adjunto se repetia, sem que algo de mal acontecesse. Eram tempos em que as portas das casas ficavam cerradas apenas, em que não se ouvia falar em furtos, roubos ou crimes piores. A única intolerância que se podia presenciar era a de algum bêbado que chegasse, mas era controlado pelos homens e convidado a visitar uma das três bodegas dali.

As rezas do mês de maio vararam décadas, sempre com as mesmas rezadeiras, ganhando novas ajudantes, moças já estudadas, mas a tarefa de dirigir o ato pertencia às três solteironas, cuja devoção era inabalável. Hoje, não mais se fala nas devoções comunitárias de maio, pois se tornou um caso de polícia sair à noite e deixar a casa sem ninguém.

Que maio seja oportunidade de uma maior devoção mariana, em família, ou, com a novidade tecnológica, pelos meios de comunicação que permitem reuniões, à distância, para assegurar o ânimo, a Esperança e a Fé em Deus. Não fossem as três solteironas, muitas pessoas da região não teriam conhecido Deus. Isso é evangelizar, com a vida. Ou acha que é fácil, após um dia inteiro na enxada, sair de casa em casa, para um ato devocional? Graças a pessoas devotas assim, a fé católica manteve-se acesa, nos rincões mais distantes dos centros urbanos. Uma fé pura, permeada de ingenuidades, mas sincera, que marcava a personalidade e o caráter das pessoas. Tempos que não voltam.

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