A INFUNCA NA FEIRA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 10 de Agosto, 2022 - Atualizado em 10 de Agosto, 2022

A INFUCA NA FEIRA

Acima de seus miolos escaldados, apenas o sol que luzia azedo de quente, parecendo que era chegada a hora de cozinhar todos os seres vivos, sem panela, nem tacho, nem fogão. E a quem serviria tamanho cozido? O sol parece ter perdido o juízo... O pano que escondia os brancos cabelos emaranhados de suor, parecia ter sido retirado do cuscuzeiro de barro... braços e pernas estavam feitos quiabo de tão lavados... Falta mais de légua e meia para chegar à casa onde estava toda a meninada à espera de um pão quentinho... as carnes lhe tremiam e a espinha estava como que congelada. Um frio estranho lhe subia da forquilha das pernas até o derradeiro nó do pescoço. Nunca presenciou um fuzuê daqueles em toda a sua vida. Jarda já tinha perto de setenta anos e, como era vitalina, vinha todos os sábados à feira de Itabaiana.

A feira ficara para trás, num frenesi que traz desassossego a qualquer criatura. Logo hoje, que Mané da Embira resolveu se botar de valente, puxando a faca para Terenço. Não ficou valente que não corresse! Terenço não é morfina; já tem para mais de dez tombos nas costas. Escreveu e não leu, ele derriba mesmo, com chumbo, a paulada ou com cutelo. Só para as bandas do Capunga deitou pra mais de três. Dizem que é mais valente do que os Jagunços do Carira. Mas hoje, na feira, estava desprevenido, e quase foi pego de tocaia, sem tempo para se defender. Não fossem os fueiros do carro de bois de seu Tonho Leitão, estaria na terra dos pés juntos, provando areia escaldada.

A infuca teve princípio dias atrás, na bodega de Zeca Cajuiero, no Congo, quando, por um ato desacovardado de Terenço, que chamou Mané de Perua choca, só por este ter peruado no carteado de cunca entre Terenço e Joventino. Com a falação de Mané, Joventino disparou e deu de nove a três em Terenço, desfazendo, no bolso deste, o apurado da semana. Foi dinheiro de três crimes ou mais! Se não é Mané de Seu João, cabra de peia, ali mesmo o entrevero teria ocorrido. Maria de Jacó do finado Joãozinho Cotó espalhou, na quadra, que seu marido presenciou a morte de um dos dois bem de pertinho. Mas Mané de Seu João atalhou, com o tino de arruaceiro das antigas, acostumado a servir casca de banana para maluco deslizar...

Terenço vive do carteado e de matar gente para os coronéis do Sertão e algum outro do Agreste. Quem se botar de bom para ele corre o risco de não ver mais esta luz. Do Rio Real ao São Francisco, do Angico ao São Cristóvão, já fez muita zoada e já deixou filho sem pai. Era tão certeiro que nunca gastou mais de uma bala para cada encomenda. E recebia preço justo. Se o cabra fosse importante, era mais caro o serviço. Mas, sendo um pé rapado, fazia por uma medida de farinha. Vive no lombo dos animais, de beco em beco, fazendo tocaia para apagar os inimigos de seus mandantes. Quando aparece no Congo, se soca na bodega de Zeca para ganhar uns trocados ou, se não tiver sorte, para perder o que apurou no gatilho.

Maria de Jacó não se conteve e, além de dar a nova ao povo do Saquinho, do Congo, Das Candeias, do Matebe e da Cova da Onça, ainda trouxe o miudinho para a feira, onde ela debulha feijão de corda, todo sábado, encostada à banca de Zé de Cipriano. De vez em quando, um trago de pinga e um ponto acrescido na conversa mole que nunca conhece fim. Se ela se pusesse de boca trancada, teria evitado a tal desgraça que quase se sucede. Onde já se viu uma mulher velha, boa de dar conta de sua casa, se metendo nas encrencas alheias, só por gosto de ver sangue? É uma lástima a língua daquele traste! E, depois de três talagadas, perde-se em assuntos que não são de sua conta. Eita velha da miséria!

Mas hoje, foi demais. Faca, fueiro, gritaria, falação, gente correndo para todos os lados... pisaram os tabuleiros de canjica de Iaiá de Pedro, quebraram os alguidares das paneleiras das Sete Casas, derrearam os sacos de farinha de Zé de Branquinha, e espatifaram as tripas das fateiras. Não houve sossego para seu ninguém. Viraram a carroça de Cândido de Vicente, soltaram as burras de Zé de Quilara, e quebraram o canzil do carro de bois de Maninho., rasgaram as redes na Banca de Zé Cardoso. Na banca de Belizário não ficou um taco de queijo. E as latas de manteiga se derreteram feito doce na boca de bêbado. O céu ficou escuro de tanto zoar de fueiro nos ares, no lombo de Mané da Embira e de quem estivesse por perto. Terenço ainda levou umas duas dentadas de Jerome Pedra Preta, mas conseguiu escapar. Sábado que vem ele dará o troco, se não for antes. Mané da Embira e sua tropa que se cuide.

Dona Dorfina, governanta da Casa Paroquial, quando viu a desavença na feira, correu para casa e chegou botando a alma pela boca. O Padre Eraldo, que é cabra esperto, logo assuntou o que por ali estava ocorrendo. Ele estava no desjejum, à chegada de Dorfina toda esbaforida. Deu-lhe vontade de passear na feira, para ver as ovelhas de sua Freguesia. Ficou de butuca, à distância de um tiro, e ainda escutou quase tudo. Foi ideia dele mandar Zé Sacristão ir chamar o Delegado Derico, para botar ordem na casa. Mas Derico só vem de quinze em quinze. Está em Simão Dias, onde tem uma família nova...

Quando os Praças chegaram, já se tinha acalmado, mas Maria de Jacó ainda se botou para dizer quem tinha razão e quem não tinha. Chamara até Seu Euclides, que não se fez presente por que é quadra de eleição e não pretende desagradar os correlegionários. Não tinha medo de seu ninguém! Eita, velho macho! Mas, pressentia que sua ida à feira pudesse desandar para ele e ficar bom para o outro lado. Não Senhor! Lá não pisou. E fez bem! Deixar de prosear com os eleitores, dando um agrado a um e prometendo um refrigério a outro, para se meter em briga de jogadores de baralho. Qual nada! O destacamento veio, mas ficou de conversa com o Reverendo, para não ter de prender ninguém. Sábado à tarde é dia de folga e só fica um soldado no Distrito. Ficar a cela cheia dá um trabalho desmedido. Assim, qualquer pendenga que houvesse, somente a partir da segunda-feira seria conveniente iniciar as buscas diligenciais. O xadrez esvaziado é noite de sono garantido para o plantonista.

De volta, jarda trazia um agrado para seus sobrinhos, que moravam rente à sua casinha, no Pov. Saquinho: Doce, pão, massa seca, a depender do apurado com os ovos e com as espessas (espécie – doce de amendoim), que ela trazia todo santo dia de feira, com encomenda certa. Vinha sozinha entre o céu e a terra, matutando sobre o acontecido. Poderia estar morta, àquela altura, e nem se tinha confessado. Moça velha tem lá seus segredos...

De repente, escuta o pisado do cavalo a galope. - Valha-me minha Nossa Senhora das Candeias! É Terenço que vem com dois quentes e um fervendo! Procurou se esquivar, resvalando para o mato, a fim de deixar o caminho livre. Ele abaixou a marcha, deu um sinal para Jarda: - Tarde, Jardinha! Deixe eu levar sua bacia até seu colchete. Ela, tremendo que nem vara verde, consentiu, e Terenço, que sempre foi homem bom, ajudou a pobre vitalina. Jarda nem mais o sol sentia.

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